A Cúpula Ibero-Americana teve início nesta quarta-feira (4) na capital espanhola com os holofotes voltados para o presidente argentino, Javier Milei, conhecido por suas críticas severas ao anfitrião e chefe de governo, o socialista Pedro Sánchez. O evento também foi marcado pela chegada inesperada do líder ucraniano Volodimir Zelensky a solo espanhol.
Tensão política e agenda dos líderes
Conhecido por suas polêmicas, o mandatário argentino desembarcou na tarde de quarta-feira, mas sua agenda oficial excluiu a participação na cerimônia inaugural e no jantar promovido pelo rei Felipe VI no Palácio Real. Seu momento central ocorre na sessão plenária da quinta-feira (05), quando fica frente a frente com Sánchez, apenas quinze dias depois de defini-lo publicamente como “ditador desprezível” e “corrupto”.
O evento é considerado uma cúpula “desconfortável” para Sánchez, conforme avaliou à AFP a pesquisadora Anna Ayuso, especialista em América Latina do centro de estudos CIDOB, de Barcelona. O incômodo decorre da presença de o ideário de direita na mesa, da campanha para as eleições legislativas agendadas para 29 de novembro e do fato de o encontro acontecer “logo após o acidente” ferroviário de Urda, que resultou em 69 mortes. Apesar do histórico de atritos, a especialista descarta um episódio nos moldes do famoso “Por que não te calas?” disparado pelo rei Juan Carlos I contra Hugo Chávez em 2007, não prevendo um confronto direto de Milei com o monarca espanhol.
Visita surpresa de Zelensky
Paralelamente às discussões ibero-americanas, Zelensky chegou a Madri no mesmo dia, conforme informações de autoridades governamentais espanholas. Embora não integre a programação formal do bloco, o presidente da Ucrânia aproveita a passagem para dialogar com Sánchez, considerado um aliado sólido, e com representantes de nações latino-americanas, onde o conflito com a Rússia desperta divergências.
As tratativas entre Kiev, Moscou e Washington têm previsão de retomada para os dias 10 e 11 de novembro em território emiradense, sob intermediação dos Estados Unidos, transcorridos mais de quatro anos e meio do início da invasão. Zelensky manifestou expectativa de que essas conversas abram caminho para um diálogo direto com seu homólogo russo, Vladimir Putin.
Ausências de peso e polarização
A edição deste ano conta com apenas sete chefes de Estado latino-americanos, refletindo o esvaziamento gradual do bloco que congrega 19 países da região, além de Espanha, Portugal e Andorra. Enquanto figuras da direita marcam presença — como o chileno José Antonio Kast, a costarriquenha Laura Fernández, o boliviano Rodrigo Paz e o hondurenho Nasry Asfura —, a esquerda regional registra ausências notáveis, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a mexicana Claudia Sheinbaum, além da presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez.
As relações entre a Argentina e a Espanha vêm se deteriorando desde que o líder ultraliberal assumiu o poder no final de 2023, período em que evitou encontros formais com o rei ou com o primeiro-ministro em suas passagens pelo país europeu. Em visita recente a Madri, o argentino instou os cidadãos locais a “expulsem os socialistas a pontapés” no pleito de novembro. Em resposta, Sánchez autodenominou-se “canhoto” e criticou as medidas econômicas do sul-americano, afirmando que “as motosserras e os cortes (…) não constroem nada, apenas destroem”.
Antes do plenário, a agenda do presidente argentino em solo espanhol inclui um compromisso com Santiago Abascal, dirigente da legenda de extrema direita Vox, a quem já declarou apoio anteriormente. Com as pesquisas apontando vantagem para a direita no pleito de 29 de novembro — ainda que sem maioria absoluta —, o cenário político local pode exigir alianças com a extrema direita para a governabilidade.






