Até a última segunda-feira (26), o presidente da Argentina, Javier Milei, acumulava a marca de único líder sul-americano a não reconhecer o triunfo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas urnas brasileiras. Enquanto isso, o restante dos governantes da região, incluindo diversos nomes da direita, já haviam enviado cumprimentos ao presidente reeleito do Brasil.
Parceria comercial e laços regionais Os vizinhos compartilham um dos vínculos comerciais mais expressivos de toda a América do Sul, marcado por forte integração industrial e papel de destaque no Mercosul. No ano de 2025, o Brasil liderou o ranking de destino das exportações argentinas, somando mais de US$ 12,8 bilhões, além de figurar como a principal origem das importações do país vizinho, com US$ 14,8 bilhões em mercadorias adquiridas, conforme dados oficiais do governo argentino.
Confrontos públicos e histórico de tensão A relutância na manifestação diplomática se soma a uma longa sequência de desentendimentos, atritos e trocas de ofensas públicas entre os dois mandatários. As rusgas ganharam força durante a campanha eleitoral brasileira, período em que o argentino apoiou abertamente o senador Flávio Bolsonaro (PL) e fez críticas duras ao petista nas redes sociais, chegando a chamá-lo de “ladrão corrupto” e a acusá-lo de adotar práticas sujas na disputa.
Outras lideranças da América do Sul O cenário regional contou com diferentes reações de líderes conservadores ligados ao chamado Escudo das Américas — aliança multinacional voltada ao combate ao narcotráfico e ao crime organizado transnacional, liderada pelos Estados Unidos. O colombiano Abelardo de La Espriella pontuou que os dois lados pertencem a espectros políticos opostos, mas estendeu a mão para manter a cooperação. O equatoriano Daniel Noboa destacou inimigos e desafios continentais em comum, ao passo que o chileno José Antonio Kast ressaltou o futuro compartilhado entre as nações.
Por sua vez, a peruana Keiko Fujimori enfatizou a necessidade de fortalecer a aliança estratégica focada no desenvolvimento da Amazônia, e o boliviano Rodrigo Paz celebrou os laços históricos bilaterais. A lista de chefes de Estado que felicitaram o brasileiro incluiu ainda Yamandú Orsi (Uruguai), Delcy Rodríguez (Venezuela), Santiago Peña (Paraguai), Irfaan Ali (Guiana) e Jennifer Geerlings-Simons (Suriname).
Ataques em eventos políticos e reações diplomáticas Em agosto, durante convenção do PL em São Paulo, Javier Milei intensificou os ataques ao participar do evento que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro. Na ocasião, o argentino chamou Lula de “presidiário” e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de “lixo careca”.
No dia seguinte, em entrevista a uma rádio de seu país, o chefe de Estado argentino alegou que o Brasil liderou uma “campanha anti-Argentina” durante a Copa do Mundo e acusou o governo brasileiro de enviar marqueteiros para interferir nas eleições presidenciais de 2023 em favor de Sergio Massa. “Eles tiveram um papel muito ativo na campanha de 2023. Ou vamos esquecer que os assessores de Massa eram um grupo de brasileiros? Eu quis ver o meu amigo Jair Bolsonaro e não me deixaram. Aqui, no entanto, o ex-presidiário (Lula) veio cumprignatar a ré (ex-presidente Cristina Kirchner)”, declarou.
Dias depois, em conversa com a emissora LN+, o presidente argentino elevou ainda mais o tom das críticas, reiterando que o petista é “ladrão”, “corrupto” e “não é inocente”, além de questionar a anulação das condenações no âmbito da Operação Lava Jato. Questionado sobre o tom agressivo, ele defendeu sua postura afirmando: “Agressivo é que alguém roube. É muito mais leve chamar um ladrão de ladrão do que o próprio ato de roubar”, classificando suas declarações como “palavras espontâneas”.
Consequências institucionais Diante do acirramento das tensões, o Itamaraty convocou o embaixador argentino em Brasília para prestar esclarecimentos e manifestar insatisfação, além de chamar o representante brasileiro em Buenos Aires para consultas. O episódio foi formalmente classificado pelo governo como “sem precedentes”, enquanto o chanceler Mauro Vieira avaliou o caso com gravidade, descartando contudo medidas drásticas como o rompimento diplomático definitivo.
Inicialmente, o presidente brasileiro buscou minimizar as provocações ao declarar “Quem é esse cara?” quando questionado pela imprensa. Contudo, em momento posterior, o tom foi endurecido durante um ato do PSB, quando o mandatário rotulou a participação do sul-americano no evento político brasileiro como uma “patacoada” e enfatizou que não toleraria ingerências externas na política nacional: “Eu não falei nada, porque a minha relação é uma relação de chefe de Estado com o Estado. (…) Eu gosto do povo argentino e não vou ficar trocando coisa com aquela coisa.”






