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Saúde bucal na gravidez: cuidados com os dentes protegem a mãe e o bebê

Saúde bucal na gravidez: cuidar da boca da mãe ajuda a proteger a saúde do bebê

O período gestacional costuma ser marcado por uma rotina intensa de exames e consultas médicas. No entanto, um aspecto essencial frequentemente acaba esquecido pelas futuras mães: a saúde bucal na gravidez, que exige tanta dedicação quanto os demais cuidados de pré-natal.

Mudanças hormonais e o impacto na gengiva

Durante a gestação, as taxas de estrogênio e progesterona sobem de forma significativa, tornando a gengiva mais vulnerável à placa bacteriana. Esse cenário favorece o surgimento de quadros inflamatórios, inchaços e sangramentos. Além disso, enjoos matinais e vômitos frequentes podem desgastar o esmalte dentário e desestimular a escovação correta.

A médica otorrinolaringologista Ana Cecília, grávida de quatro meses, já conhecia a importância da profilaxia antes mesmo de esperar o segundo filho. “Antes de engravidar, eu já sabia que precisava, sim, de atenção à saúde bucal. Eu sou médica e já sabia dessa importância, da profilaxia. Nunca tive nenhum sintoma gengival, mas faço esse acompanhamento odontológico justamente para limpezas e verificação de como é que está”, relata.

Como também convive com o diabetes, ela precisou redobrar os cuidados devido ao aumento do apetite em intervalos mais curtos. “Como sou diabética, começa a ter mais fome, então encurtei os intervalos das refeições. Isso acaba facilitando o acúmulo de tártaro e dando mais vontade de comer doces. Por isso, é importante ter uma atenção especial”, explica a gestante.

Riscos e complicações da falta de atendimento odontológico

A negligência com a higiene dos dentes pode abrir portas para cáries e para o chamado granuloma gravídico — uma lesão benigna e altamente vascularizada na gengiva provocada pelas oscilações hormonais.

A especialista em odontopediatria Mariana Cordeiro alerta sobre a gravidade dessas ocorrências. “Muito se fala de infecção urinária durante a gestação e de suas complicações, mas sabemos que todas as infecções durante esse período merecem atenção. Durante a gestação, a mulher passa por muitas mudanças, uma delas é a inflamação na gengiva, a periodontite, que é quando a gengiva fica mais inchada, mais vermelha e sangrando com mais facilidade”, pontua a profissional.

A ginecologista e obstetra Daniele Aragão reforça que o problema ultrapassa a boca da mãe. “Existem estudos que associam doenças periodontais ao parto prematuro, baixo peso ao nascer e pré-eclâmpsia. Embora não exista comprovação de uma relação direta de causa e efeito, sabemos que infecções e inflamações importantes precisam ser tratadas para poder proteger a saúde materna e fetal”, esclarece a médica.

Apoio na rede pública e direitos garantidos

Para muitas mulheres, o acesso ao dentista transforma a rotina de gestação. A agricultora Ellen Emanuella enfrentou dificuldades na primeira gravidez por falta de orientação, mas encontrou suporte especializado nos atendimentos seguintes pelo SUS, o que resolveu dores e sensibilidades crônicas. “Senti muita diferença na hora de comer. Antes eu tinha bastante sensibilidade com água gelada e dor para mastigar de um lado da boca. Com o início dos cuidados [bucais], conseguia me alimentar normalmente sem nenhum incômodo”, comemora.

Do ponto de vista legal, o acesso ao tratamento odontológico para gestantes está amparado por diferentes marcos normativos no Brasil. A advogada Fernanda Martins, especialista em Direito Médico e da Saúde, detalha a evolução dessa assistência. “Desde a Constituição de 1988, o SUS deve oferecer atendimento integral, e o Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, garante à gestante um pré-natal completo. Em 2004, a política Brasil Sorridente colocou as grávidas como público prioritário da saúde bucal. A garantia ficou expressa em 2024, quando a Rede Alyne, programa do Ministério da Saúde para a saúde da mãe e do bebê, incluiu no pré-natal o cuidado integral com a saúde bucal da gestante”, destaca.

Dados estatísticos demonstram o volume desse suporte na rede pública. Somente em Pernambuco, a Secretaria Estadual de Saúde registrou 655.233 consultas de pré-natal na Atenção Primária em 2025, além de 505.339 atendimentos contabilizados entre janeiro e agosto de 2026.

Portanto, iniciar o acompanhamento odontológico logo nos primeiros meses de gravidez funciona como uma estratégia dupla: garante o bem-estar da mãe e estabelece as bases para o desenvolvimento saudável da criança nos chamados primeiros mil dias de vida.

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