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Mãe que perdeu filho em megaoperação no Rio cria rede de apoio

Mãe tentou convencer o filho a se entregar, encontrou-o morto e hoje acolhe famílias atingidas pela violência na Penha

A busca que terminou em tragédia

A confeiteira Tauã Brito passou mais de doze horas mobilizada em busca do filho, Wellington Brito, durante a megaoperação realizada nos Complexos da Penha e do Alemão. Naquela manhã, sua intenção era localizá-lo com vida e convencê-lo a se entregar às autoridades policiais. Contudo, após enfrentar disparos na direção de onde tentava avançar, ela só conseguiu entrar na área de mata pela madrugada, encontrando o corpo do jovem entre os dezenas de mortos levados para a Praça São Lucas.

As circunstâncias do falecimento, que ocorreu durante a ação policial que deixou 122 mortos, tornaram-se alvo de investigações conduzidas pelo Ministério Público do Rio de Janeiro e pela Delegacia de Homicídios da Capital. A mãe relata que Wellington estava com uma corda amarrada no braço e questiona a dinâmica da ocorrência, argumentando que ele deveria ter tido a chance de se entregar.

Ameaças e o recomeço longe de casa

Além da dor pela perda, Tauã passou a relatar episódios de intimidação e coerção. Segundo o seu relato, agentes de segurança fizeram comentários ofensivos sobre o rapaz e proferiram ameaças diretas contra a integridade física dela própria.

“Teve policiais que mandou para mim: ‘tinha que ter deixado você entrar [na mata], que assim matava logo mãe e filho’. Outros mandaram assim: ‘você tem que morrer porque gosta de alimentar vagabundo’, falando que meu filho era vagabundo, né? Que eu tinha que morrer. E aí até que um mandou para mim assim: ‘A próxima vez eu vou na sua casa’, e aí mandou o meu endereço”, contou.

Diante do medo e das investidas para silenciá-la, a confeiteira optou por deixar o Complexo da Penha.

“Ou seja, eu não posso nem falar da morte do filho, porque eles querem é intimidar o tempo todo”, disse.

O nascimento do projeto Fênix

O que inicialmente nasceu como uma iniciativa para afastar jovens da criminalidade por meio de capacitação profissional transformou-se em um espaço de suporte emocional. Enquanto tentava estruturar a ideia original, Tauã começou a ser procurada por outras mulheres que enfrentavam o mesmo vazio após perderem entes queridos em contextos violentos e não encontravam amparo institucional.

Atualmente, a iniciativa reúne cerca de 35 mães de diferentes comunidades cariocas, com encontros quinzenais cedidos pelo espaço social Arte Transformadora. Para a fundadora, a troca de experiências é fundamental para dar vazão a uma dor que costuma ser ignorada pela sociedade após os rituais de sepultamento.

“Em algum momento, o projeto Fênix vai chegar nos jovens, mas hoje o projeto Fênix precisa abraçar essas mulheres, porque o que acontece é que ninguém olha para essas mulheres. Ninguém olha para o familiar. As pessoas enxergam muito até o dia do sepultamento. E, quando passa o dia do sepultamento, ninguém olha”, afirmou.

Ela reforça que o espaço coletivo permite expressar sentimentos reprimidos: “Lá no Fênix, eu consigo chorar. Eu consigo colocar para fora os sentimentos que a gente vem suportando, tendo que se fazer forte o tempo todo”, declarou.

Cobrança por oportunidades e o reconhecimento

Além do suporte psicológico e comunitário, Tauã defende que o poder público atue de maneira preventiva nas favelas, priorizando investimentos em educação, esporte, cultura e lazer em vez de focar apenas em ações policiais letais.

“O Estado entrou e matou. E aí, o que mudou? O que o Estado fez para mudar? Não fez nada”, questionou, reforçando que a diminuição da violência passa pela criação de reais perspectivas para a juventude.

Pela atuação na defesa dos direitos humanos e na denúncia da morte do filho durante a Operação Contenção, Tauã recebeu, em março de 2026, a 38ª Medalha Chico Mendes de Resistência, concedida pelo Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro.

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