Pela primeira vez na história, o Acre será comandado por uma chapa inteiramente feminina no poder executivo. A vitória de Mailza Assis (PP) e Jéssica Sales (MDB) no segundo turno das Eleições 2026 marca um momento inédito para o Palácio Rio Branco, mas o cenário contrasta fortemente com a composição da Assembleia Legislativa do Acre (Aleac), que não terá nenhuma mulher entre seus 24 deputados eleitos para os próximos quatro anos.
O paradoxo da representação política
O triunfo histórico coloca Mailza como a primeira governadora eleita pelo voto direto no estado. Contudo, a governabilidade nos próximos anos precisará lidar com um parlamento estadual composto exclusivamente por homens, levantando debates urgentes sobre a inclusão feminina nos espaços de poder.
Para o professor e cientista político Nilson Euclides, o resultado duplo evidencia caminhos distintos de acesso aos cargos públicos. Segundo ele, a chegada ao Executivo pode ocorrer por trajetórias específicas, enquanto o Legislativo exige bases partidárias consolidadas.
“Por um lado, você teve a eleição de uma governadora com a sua vice, ou seja, uma chapa feminina, que saiu vencedora nas eleições para governo do Estado em 2026. Por outro lado, você tem uma eleição para o poder legislativo esvaziada da figura feminina. São 24 deputados e não há nenhuma mulher, nenhuma representante feminina”, frisou o especialista.
Desafios e estruturas partidárias
O pesquisador aponta que a entrada das mulheres na política institucional muitas vezes ocorre por meio de ligações familiares ou alianças tradicionais, a exemplo da ex-governadora Iolanda Fleming na década de 1980. No entanto, conquistar uma cadeira de deputada demanda uma militância orgânica e forte inserção partidária.
“A gente consegue entender a dificuldade que se tem na Assembleia Legislativa de ter figuras femininas justamente porque, na Aleac, o caminho para se chegar a uma cadeira ou é via partido ou por ser membro de uma família tradicional da política ou ser militante de um movimento, estar envolvido em algum tipo de luta política, seja ela popular ou mais partidária e orgânica”, acrescentou.
Para o cientista, superar essas barreiras exige transformar lideranças comunitárias e de periferias em candidaturas competitivas, rompendo com estruturas ainda excludentes.
“As mulheres lideram alguns processos, mas dificilmente essa liderança chega a ser algo que se constitua como uma liderança política ou partidária […] Essa é uma questão que precisa ser bem estudada e analisada para que as mulheres possam, por meio das lutas coletivas que elas imprimem na sociedade, se constituírem como lideranças, mas não apenas lideranças oriundas de famílias tradicionais ou de indicações”, pontuou.
Articulação na Assembleia Legislativa
Apesar do desafio simbólico da ausência de deputadas, o governo eleito contará inicialmente com uma base sólida de sustentação na Aleac. A maioria dos parlamentares recém-eleitos deve compor o arco de alianças da gestão, facilitando a votação de projetos e a articulação política do Executivo estadual a partir do próximo ano.






