O real sofreu um forte impacto nesta sexta-feira (30), registrando o segundo pior desempenho entre as divisas globais mais líquidas. O dólar à vista encerrou o dia cotado a R$ 5,4443, com alta de 1,05%, alcançando o maior patamar de encerramento desde o dia 30 de dezembro do ano passado, quando fechou a R$ 5,4890. Durante a tarde, a moeda americana atingiu a máxima de R$ 5,4621, acompanhando o movimento de baixa das bolsas em Nova York.
Impacto da reeleição e o cenário internacional A semana foi marcada por turbulências na economia brasileira, sendo a primeira após a surpreendente reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A divisa acumulou ganhos expressivos de 9,04% no período, impulsionada principalmente pelo salto de 8,12% registrado na última segunda-feira (26). Esse avanço semanal é o mais expressivo desde outubro de 2008, período marcado pela crise financeira global deflagrada pelo colapso imobiliário nos Estados Unidos. Com o avanço de 5,20% apenas em outubro, a moeda reduziu as perdas acumuladas e passou a exibir alta de 0,81% no ano.
Fatores externos e a aversão ao risco O mercado financeiro reagiu fortemente a uma conjuntura externa desfavorável, combinada com a frustração dos investidores locais. O head da Tesouraria do BS2, Ricardo Chiumento, atribui o tombo do real na semana, sobretudo, ao fato de os investidores terem se posicionado “unilateralmente” para a vitória eleitoral da oposição, na qual estavam depositadas as expectativas de um ajuste fiscal robusto a partir de 2027.
O especialista também destacou o peso do ambiente internacional desfavorável. “Esse desmonte de posições se deu em uma conjuntura externa muito desfavorável, com aumento das preocupações com o setor de tecnologia nos EUA e com a inflação. Com o petróleo pressionado, os bancos centrais de países desenvolvidos já sinalizam mais aperto monetário”, afirma Chiumento, ressaltando que há riscos de escalada do conflito no Oriente Médio após as eleições parlamentares de meio de mandato nos EUA, na próxima terça-feira (3).
Incertezas sobre a política fiscal A falta de clareza em relação ao comando da economia e às diretrizes para o orçamento também pesou sobre os ativos brasileiros. O tesoureiro observa que sinais dúbios sobre medidas de ajuste das contas públicas vindos de pessoas próximas do presidente Lula e até de dentro do governo nos últimos dias, somados à falta de definição sobre o futuro ministro da Fazenda, mantêm os investidores na defensiva.
Rumores e o cenário político Operadores atribuíram a redução do ritmo de alta do dólar no fim do pregão de quinta à notícia de que Lula viajaria ao Piauí para convidar o governador reeleito do estado, Rafael Fonteles, que tem boas credenciais no campo fiscal, a assumir a Fazenda. Em postagem no X, Fonteles afirmou que não tratou com Lula sobre cargos e que não está agendada uma visita do presidente ao Piauí.
Diante do cenário de instabilidade, a expectativa para os próximos passos da política monetária permanece em foco. “A preocupação fiscal nunca foi tão grande. Vejo espaço para piora do Ibovespa e do real se o governo não conseguir recuperar a confiança do mercado”, afirma Chiumento, acrescentando que, diante da incerteza, o Comitê de Política Monetária (Copom) deve optar por manter a taxa Selic em 13,75% na próxima quarta-feira (4).
Perspectivas futuras para o câmbio A estrategista sênior de câmbio do banco holandês ABN-Amro, Georgette Boele, pontua que o presidente Lula precisa mostrar que haverá uma melhora das contas públicas para “tranquilizar os investidores”, que estavam posicionados para uma vitória de Flávio Bolsonaro. Derrotado, o candidato do PL fugiu para os Estados Unidos, após o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes ordenar que ele entregasse seus passaportes.
Apesar da forte volatilidade e da pressão sobre o câmbio, analistas apontam que há margem para acomodação caso o governo apresente diretrizes econômicas claras. “O sell-off foi exagerado e o real pode se recuperar. O Banco Central brasileiro continua comprometido com o combate à inflação, e as taxas de juros reais estão em níveis muito atraentes. Esperamos também que a situação política se estabilize”, afirma Boele, em relatório enviado nesta sexta a clientes.






