O eleitorado latino, que desempenhou um papel central na vitória de Donald Trump nas presidenciais de 2024, virou sua preferência de forma expressiva para o Partido Democrata, tornando-se a grande esperança da oposição para retomar o controle do Congresso norte-americano nas eleições de meio de mandato de 3 de novembro.
As pesquisas eleitorais apontam que a comunidade hispânica deve votar em uma proporção duas vezes maior em candidatos democratas em comparação aos republicanos. O jornal “The New York Times” projeta um respaldo de 61% para os democratas e 31% para os republicanos, destacando que “os latinos são o grupo de eleitores indecisos mais importantes da década de 2020. […] Os democratas obtiveram importantes ganhos entre os latinos, que podem ajudá-los a retomar o controle do Congresso”.
A derrocada no apoio a Trump O apoio ao atual presidente derreteu após o pico de 44% dos votos latinos conquistados em 2024. De acordo com o professor Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Iuperj, o desgaste ocorre principalmente devido à política migratória rigorosa, marcada por ações do ICE e deportações, e à política econômica baseada em tarifas que elevaram o custo de vida.
“Esses dois elementos podem prejudicar bastante o Trump e fazer a diferença nas midterms”, afirmou Santoro ao g1. “Os latinos são a maior das minorias étnicas nos EUA”, acrescentando que eles representam cerca de 13% da população total do país.
O impacto das deportações e da inflação As operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA atingiram fortemente o tecido social das comunidades hispânicas. O especialista aponta que “as operações do ICE contra imigrantes, clandestinos ou não, têm ferido muito as comunidades latino-americanas nos EUA. Essas ações afetaram profundamente várias comunidades, então há uma probabilidade muito alta de impactar nas urnas”.
No campo econômico, o protecionismo da Casa Branca gerou um efeito reverso. “A ironia é que o remédio que Trump propôs para combater a inflação acabou piorando muito o problema”, explicou Santoro, detalhando que a crise decorrente atingiu de maneira severa a população latino-americana, estatisticamente mais pobre.
Mudanças no mapa político e queda de popularidade A insatisfação gerou uma reviravolta nas preferências: dois terços dos latinos agora confiam mais nos democratas tanto em imigração quanto em economia, segundo a pesquisa Times/Siena. A taxa geral de aprovação de Trump caiu para 54% entre seus próprios eleitores de 2024, de acordo com o Pew Research, enquanto o índice geral de popularidade do presidente despencou para 31% na pesquisa Reuters/Ipsos.
No Texas, onde os hispânicos compõem quase um terço do eleitorado, a disputa acirrada pelo Senado pode resultar na vitória de um democrata pela primeira vez em cerca de 40 anos. O candidato democrata James Talarico lidera a média das pesquisas contra o republicano Ken Paxton, mesmo enfrentando forte oposição externa. “Estamos literalmente disputando contra o homem mais rico do mundo e o mais poderoso do mundo”, declarou Talarico ao NYT.
Criminalidade e dados oficiais Apesar de discursos oficiais associarem a imigração irregular ao aumento da criminalidade, um levantamento da Universidade da Califórnia publicado em agosto — abrangendo 11,5 mil bairros em mais de 100 cidades — demonstrou que crimes violentos e patrimoniais sofreram redução nas localidades que receberam mais imigrantes ilegais, corroborando a estabilidade dessas comunidades diante das pressões políticas atuais.






