Encarada desde a antiguidade com Platão até pensadores contemporâneos como Heidegger e Bauman como a única certeza da vida, a morte ainda é cercada de tabus. No entanto, uma prática voltada para o acolhimento da finitude começa a ganhar espaço no Brasil: a atuação das chamadas doulas da morte.
Como atua a doula da morte Em Piracicaba, interior de São Paulo, a professora de ioga e terapeuta integral Silvia Onofre se capacitou para a função após perder o pai e o cunhado em um intervalo de cinco meses no ano de 2017. O trabalho consiste em acompanhar pessoas e famílias diante do processo de morrer e do luto, oferecendo presença, escuta e apoio emocional, sem substituir o atendimento médico ou os cuidados paliativos.
“A morte faz parte da vida. E falar sobre ela não precisa ser um assunto sombrio”, afirma Silvia em uma de suas postagens nas redes sociais em que apresenta a prática de doula da morte.
Retiros de finitude e funerais simbólicos Além do atendimento individual, a terapeuta realiza retiros temáticos e grupos de apoio. Enquanto a primeira edição do evento abordou mortes simbólicas como o fim de relacionamentos ou demissões, a proposta seguinte voltou-se para a preparação diante da finitude física.
“A doula da morte é aquela que facilita o espaço para o morrer. Assim, como temos a doula de nascimento, que prepara todo o espaço para o ser vir ao mundo, a doula da morte facilita essa despedida do corpo físico. Ao descobrir uma doença e que vai entrar numa terminalidade, a pessoa pode fazer o preparo para a morte”, afirma.
Superação de traumas e perdas O suporte também atinge quem sofreu perdas no passado e carrega dores reprimidas, como o caso da professora Rafaela Pereira Santos. Com o auxílio da terapeuta, ela realizou uma cerimônia de despedida para o primeiro filho, falecido anos antes durante o parto.
“Na minha primeira gravidez, tive complicações no final, com 32 semanas. Tive eclâmpsia e acabei perdendo meu bebê. Não pude velar o corpinho do Lourenço, não pude enterrar. A Silvia me sugeriu fazer um velório simbólico. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido, porque, apesar de ter passado todos esses anos, sempre fica uma feridinha aberta. Ficou um momento que eu precisava ter, porque na época eu não pude; fiquei internada por três dias no hospital”, relembra.
Visão da medicina sobre o fim da vida Especialistas da área da saúde apontam que o diálogo aberto sobre a finitude é fundamental para evitar complicações psicológicas e preservar a dignidade do paciente.
“Ainda existe muito tabu na nossa cultura sobre a morte. No caso de doenças terminais, esse processo de luto pode passar de forma desconfortável, com foco na doença, e não precisa ser dessa forma”, avalia o psiquiatra Arthur Cardoso.






