Duas pessoas assistem ao mesmo debate eleitoral, ouvem os mesmos candidatos e acompanham as mesmas notícias. Ao final, chegam a conclusões completamente diferentes. Para uma, a escolha parece óbvia. Para a outra, é difícil entender como alguém pode pensar daquela maneira.
O realismo ingênuo na psicologia E o mais curioso: as duas podem estar convencidas de que estão enxergando a realidade como ela realmente é —e de que o problema está na incapacidade do outro de perceber o evidente. Essa tendência tem nome: realismo ingênuo, um fenômeno estudado pela psicologia social que ajuda a explicar por que divergências de opinião, especialmente em períodos eleitorais, podem se transformar em conflitos pessoais.
O conceito foi desenvolvido em pesquisas do psicólogo americano Lee Ross e de seus colaboradores, a partir da década de 1990. Ele descreve a tendência humana de acreditar que nossas percepções são objetivas e de presumir que outras pessoas, se forem suficientemente racionais e bem informadas, chegarão às mesmas conclusões. Quando isso não acontece, surge uma explicação aparentemente simples: o outro está desinformado, foi manipulado ou não consegue raciocinar corretamente.
Emoções e desejos nas convicções Mas o que parece uma avaliação puramente racional envolve também emoções, experiências pessoais e desejos. Segundo o psicanalista, escritor e professor Christian Dunker, titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), o problema começa quando deixamos de reconhecer que nossa percepção é apenas uma das maneiras possíveis de interpretar o mundo.
“Entre nós e a realidade existem nossas fantasias, nossas ilusões, nossas memórias”, explica.
Isso significa que não interpretamos os acontecimentos apenas com base nas informações que recebemos. Nossa história, nossas expectativas e aquilo que desejamos também influenciam a maneira como atribuímos sentido aos fatos. Para Dunker, uma das razões para ser tão difícil aceitar quem pensa diferente está no fato de que nossas convicções não são construídas exclusivamente pela lógica. Existe também uma dimensão emocional.
A política como expressão de desejos Nas eleições, esse mecanismo pode ganhar força porque as escolhas políticas envolvem mais do que propostas de governo ou avaliações sobre candidatos. Elas também expressam expectativas sobre o futuro, valores pessoais e a sociedade em que cada pessoa gostaria de viver.
“Um voto é um desejo”, resume Dunker.
Segundo ele, a política é justamente o espaço em que diferentes desejos e interesses se encontram e entram em conflito. O problema aparece quando a identificação com determinada posição política se torna tão intensa que qualquer discordância passa a ser percebida como uma ameaça à própria identidade. Nesse cenário, a discussão deixa de ser apenas sobre qual projeto de sociedade uma pessoa considera mais adequado e passa a envolver quem ela acredita ser —e quem imagina que o outro seja.
O impacto nas relações familiares A dificuldade de lidar com opiniões diferentes também ajuda a entender por que discussões políticas podem abalar relações entre pais e filhos, irmãos, amigos e casais. Mas, segundo Dunker, nem sempre essas divergências começam com a política. Muitas vezes, conflitos familiares já existiam, embora não fossem discutidos abertamente.
“O que o processo político faz é acirrar essas antigas mazelas”, explica.
O psicanalista cita, por exemplo, as relações entre pais e filhos. Mesmo quando existe afeto, elas podem carregar conflitos relacionados à autoridade, à autonomia e às diferenças entre gerações. Em um ambiente de polarização, essas tensões podem encontrar novas formas de manifestação, transformando diferenças políticas em disputas pessoais.
Como identificar o fenômeno em si mesmo Essa talvez seja a parte mais difícil: reconhecer o realismo ingênuo em nós mesmos exige questionar justamente aquilo que consideramos evidente. Dunker ressalta que ninguém está completamente imune ao fenômeno.
“Todos nós somos, sob certas circunstâncias, presa fácil para o realismo ingênuo”, afirma.
A reflexão proposta pelo especialista passa, portanto, pela capacidade de reconhecer nossas próprias incertezas, admitir contradições e compreender que outras pessoas podem ter experiências e desejos diferentes dos nossos. Isso não exige abrir mão de convicções nem deixar de confrontar informações falsas, mas sim entender que ter certeza de alguma coisa não é, por si só, uma garantia de estar certo.






