O ano de 2026 registrou um recorde histórico de afastamentos do trabalho motivados pela ludopatia, o vício em apostas online, com 377 casos contabilizados apenas até o mês de agosto, superando os 312 registros contabilizados em todo o ano anterior, segundo levantamento baseado em dados oficiais da Previdência Social.
Raio-x e os custos para a Previdência Os gastos com a concessão de benefícios por incapacidade decorrentes da dependência de jogos cresceram de maneira expressiva nos últimos anos. Entre junho de 2023 e agosto deste ano, os pagamentos somaram pelo menos R$ 4,8 milhões, sendo que o montante liberado apenas em junho de 2024 foi seis vezes maior do que o registrado no mesmo período de 2023. Especialistas e órgãos governamentais destacam que esses números representam apenas uma parcela do problema, pois existe uma forte subnotificação associada ao diagnóstico oficial.
O impacto da facilidade digital no cérebro Reconhecida pela psiquiatria como um transtorno psiquiátrico desde 1980, a ludopatia ativa no sistema nervoso os mesmos circuitos de recompensa associados ao consumo de álcool e drogas ilícitas. No entanto, a popularização dos smartphones transformou o cenário atual, permitindo que os apostadores tenham acesso irrestrito às plataformas de apostas a qualquer momento do dia.
“Essas pessoas têm o cassino na palma da mão, podem fazer o depósito, o empréstimo, tudo no celular. É muito rápido. Esses pacientes perdem tudo em poucos meses e não conseguem se estruturar, buscar ajuda para estancar antes que o problema seja dessa magnitude”, explica o psiquiatra Emílio Giroldo Tazinaffo.
Desafios estruturais no atendimento pelo SUS O crescimento acelerado de pessoas afetadas pelo vício gerou uma pressão inédita sobre a rede pública de saúde, que enfrenta dificuldades para absorver a demanda por tratamentos psicológicos e psiquiátricos.
“É um dos maiores desafios de saúde mental do país e o SUS não está preparado. O sistema tem necessitado de mais profissionais, espaços de CAPS, treinar médicos, aumentar o atendimento. Além de medicações”, explica o psiquiatra e especialista em ludopatia, Emílio Giroldo Tazinaffo.
Investigações e o mercado de apostas Enquanto o debate sobre a regulamentação e a proibição parcial das plataformas avança no cenário político e jurídico, o Ministério Público acompanha casos graves de assédio a apostadores diagnosticados. Um processo em andamento no Distrito Federal investiga uma empresa licenciada que teria oferecido vantagens e bebidas alcoólicas para incentivar uma cliente com ludopatia a continuar apostando, mesmo após acumular prejuízos financeiros severos.
“Os regulamentos, por si só, poderiam em alguma medida resolver o problema. Poderiam, desde que as empresas agissem de acordo com as regras do setor. Mas nem isso. Esse tipo de coisa é altamente vedado pelo próprio regulamento que já existia. Como vamos saber se ela era a única ou se vários outros apostadores doentes não eram também seduzidos com propostas assim?”, questiona o promotor de Justiça Paulo Roberto Binicheski.
Contexto econômico e perspectivas O fenômeno das apostas esportivas e cassinos virtuais continua a provocar debates intensos entre economistas, reguladores e profissionais da saúde. A discussão sobre a eficácia das medidas de restrição esbarra no desafio de conter a migração dos usuários para o mercado clandestino de apostas, enquanto o sistema de saúde busca alternativas para ampliar o suporte às famílias e aos trabalhadores atingidos pelo endividamento extremo.






