O presidente Lula (PT) elegeu o Hino da Independência do Brasil como trilha sonora de momentos cruciais de sua campanha e de sua vitória eleitoral. A canção ecoou diante de multidões na Avenida Paulista, em São Paulo, tanto no encerramento da disputa quanto na comemoração do resultado, em um movimento estratégico para reposicionar o debate sobre os símbolos pátrios e a soberania nacional.
O significado da escolha musical
Durante o desfile em um trio elétrico no sábado que antecedeu o pleito, o petista esteve acompanhado de sua esposa, Janja, e de aliados políticos como Fernando Haddad, Marina Silva e Simone Tebet. O evento mobilizou grande parte da via pública. Quando as notas do hino começaram a tocar, parte do público demonstrou surpresa inicial, mas logo entoou a letra de forma emocionada.
“Brava gente brasileira, longe vá, temor servil. Ou ficar a Pátria livre, ou morrer pelo Brasil”, cantaram os manifestantes emocionados.
No dia seguinte, ao discursar para celebrar o triunfo eleitoral, o chefe do Executivo justificou a escolha de repetir a música. “Ontem eu fiquei emocionado, e eu quero pedir para outra vez tocar o Hino da Independência. Para eles saberem que nós não cabemos no quintal de ninguém”, afirmou.
A batalha em torno da soberania e do patriotismo
Especialistas apontam que o uso de referências históricas faz parte de uma disputa mais ampla sobre o significado da soberania. Enquanto o governo associa o termo à autonomia frente a pressões internacionais, setores da oposição historicamente vinculam o conceito à segurança pública.
Para a cientista política Tathiana Chicarino, coordenadora do curso de graduação em Sociologia e Política da FESPSP, a canção composta por D. Pedro I e Evaristo da Veiga em 1822 traz um apelo direto que favorece o enquadramento político desejado pelo presidente.
“Para essa frente democrática, soberania significa não interferência de uma potência global, como são os Estados Unidos, em questões domésticas, sejam elas eleitorais, sejam elas sobre condução de assuntos comerciais. Então, eu faço comércio contigo, eu não tenho que ceder ao que ele deseja só pelo desejo e pela força desse país”, afirmou.
A pesquisadora também pontua a visão apresentada pela extrema-direita sobre o mesmo tema. “Ele trata soberania em termos de segurança pública e tenta dissociar desses elementos de relações internacionais, sobre essa geopolítica”, disse, referindo-se a discursos de aliados da oposição.
Apropriação e polarização dos símbolos nacionais
A associação entre a bandeira, as cores verde e amarela e a extrema-direita ganhou força a partir de manifestações ocorridas na década passada e se consolidou nos pleitos seguintes. Em reação a isso, campanhas recentes tentaram resgatar o uso dessas cores por eleitores de esquerda, buscando desvincular a identidade nacional de um único grupo político.
Essa polarização, segundo a análise acadêmica, vai além das divergências partidárias, refletindo uma divisão afetiva na sociedade, comparada à rivalidade entre torcidas de futebol. Nesse contexto, a disputa pelo patriotismo é vista como fundamental para evitar a exclusão de parcelas da população.
Essa disputa deve existir e é importante que seja feita, porque a captura total dos elementos pátrios por uma extrema direita tem um sentido muito de exclusão, não de inclusão.
“Patriotismo nacional e defesa do Brasil não são bandeiras exclusivas da extrema-direita, nunca foram. Esses são termos políticos que estão sempre em disputa”, afirmou.
Nacionalismo inclusivo versus excludente
O debate sobre os símbolos pátrios também passa por diferentes visões de nacionalismo. Por um lado, existe uma vertente excludente e xenofóbica, que restringe o pertencimento à comunidade nacional. Por outro, há a possibilidade de construir um sentimento de união que respeite a diversidade e as diferenças regionais.
“Existe um nacionalismo que pode ganhar contornos bastante xenofóbicos. Um nacionalismo que é fechado, que delimita quem está dentro e quem está fora. Então, bastante excludente”, afirmou a especialista.
Em contrapartida, ela destaca o modelo consolidado no período pós-ditadura. “Mas a gente pode ter um nacionalismo mais inclusivo, que, de alguma maneira, foi o que a gente foi construindo em termos de nacionalismo no pós-ditadura, com a redemocratização. Então, ser brasileiro ou se sentir brasileiro é mais do que ter nascido brasileiro”, disse.
Por fim, a retomada de hinos e bandeiras por diferentes correntes políticas evidencia que a identidade nacional permanece em constante disputa, servindo tanto para demarcar posições quanto para tentar unir cidadãos sob referências comuns.






