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Criança gordinha pode estar desnutrida? Entenda o paradoxo

Seu filho pode estar acima do peso e desnutrido? Entenda esse alerta

O Brasil enfrenta um cenário ambíguo em sua realidade nutricional que desafia diretamente os consultórios médicos. O avanço simultâneo da obesidade infantil ocorre junto a falhas persistentes na ingestão de vitaminas fundamentais para o desenvolvimento. Longe de serem excludentes, essas condições coexistem, dando espaço para a chamada desnutrição oculta nos atendimentos pediátricos.

Além da balança

Avaliar a saúde infantil exige ir muito além da verificação de peso ou do índice de massa corporal. Uma criança pode ingerir calorias em excesso e, ainda assim, manter uma rotina alimentar pobre em fibras, minerais e vitaminas cruciais. Identificar essa sobreposição é o único caminho para evitar danos duradouros ao crescimento, desenvolvimento e à saúde metabólica.

A qualidade da comida precisa entrar na conta do desenvolvimento infantil. Essa realidade ficou evidente no estudo multicêntrico Nutri-Brasil Infância I, que analisou a dieta de pré-escolares no país. A investigação apontou carências de ferro, zinco, cálcio e fibras, além de um consumo alarmante de sódio. Entre os pequenos de 4 a 6 anos, 57% não alcançam a meta diária de cálcio, enquanto 98% extrapolam o limite seguro de sódio.

O ferro também exige uma análise minuciosa. Mais do que medir o volume consumido, é preciso avaliar a biodisponibilidade do mineral e o quanto o organismo consegue de fato absorver.

A epidemia do excesso de peso

Enquanto isso, os índices de sobrepeso ganham proporções epidêmicas. O Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI) revela que o sobrepeso atinge 7,0% dos menores de cinco anos, e a obesidade chega a 3,0% desse grupo.

Esse panorama esclarece o paradoxo: o excesso de tecido adiposo não garante um organismo bem nutrido. Peso e qualidade nutricional são frentes distintas que demandam exames conjuntos.

Programação metabólica

O ponto de encontro entre a escassez e o excesso calórico ocorre na janela dos primeiros mil dias de vida, abrangendo a gestação e os dois primeiros anos. Discussões científicas estendem esse período até o fim da adolescência, englobando as mil semanas de desenvolvimento.

Segundo a teoria das origens desenvolvimentistas da saúde e da doença (DOHaD), agressões nutricionais nessas fases geram adaptações permanentes. Se o bebê enfrenta privações ou substitui o aleitamento por leite integral e ultraprocessados baratos, o metabolismo se programa para poupar energia, sacrificando o crescimento e gerando baixa estatura.

Quando essa mesma criança passa a ter acesso facilitado a calorias baratas, o tecido acumula gordura rapidamente. É o nascimento da fome oculta, unindo ganho de peso e carência profunda de micronutrientes como vitamina A, zinco e ferro.

O papel dos profissionais de saúde

Para médicos e especialistas, essa transição exige uma mudança profunda na conduta clínica, indo muito além da simples divisão entre magrezo e obesidade.

O foco do pediatra e do nutrólogo passa a ser o controle do ganho de peso disfuncional aliado à caça de carências em pacientes que consomem calorias em abundância.

O atendimento atual demanda uma investigação aprofundada da dinâmica familiar, mapeando a exposição aos chamados pântanos alimentares — ambientes tomados por ultraprocessados e bebidas açucaradas — e distúrbios alimentares. Intervir na saúde exige olhar além da balança e compreender o estilo de vida contemporâneo.

Dr. Mauro Fisberg – CRM 28119 | RQE 3935 e 37146 Pediatra e nutrólogo Coordenador do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (CENDA) do Sabará Hospital Infantil e do Instituto PENSI

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