Um levantamento detalhado revelou que 93 municípios brasileiros funcionaram como verdadeiras “ilhas eleitorais” no segundo turno da eleição presidencial. Nessas localidades, a escolha nas urnas divergiu completamente da preferência de todas as cidades vizinhas, criando bolhas políticas regionais.
Como se distribuem as ilhas eleitorais
De acordo com os dados, 65 dessas localidades votaram majoritariamente em Lula (PT), embora estivessem cercadas por municípios onde Flávio Bolsonaro (PL) saiu vitorioso. Em contrapartida, outras 28 cidades registraram o cenário inverso: Flávio foi o mais votado, mas ficou rodeado por territórios favoráveis a Lula.
Em âmbito nacional, Lula levou a melhor em 2.875 cidades, enquanto Flávio Bolsonaro venceu em 2.695, com um empate registrado apenas em Marquinho (PR). Na prática, aproximadamente um a cada 60 municípios do país comportou-se como um ponto totalmente isolado na preferência dos eleitores.
Fatores geográficos e perfis locais
A classificação de “ilha” não depende de uma margem ampla de vitória. Em Montes Claros (MG), por exemplo, Flávio Bolsonaro ganhou por uma vantagem de apenas 0,16 ponto percentual, o equivalente a 379 votos, mesmo sendo cercado por municípios com forte predominância de Lula.
As bases isoladas de Lula concentram-se principalmente nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste. Alguns desses redutos possuem forte presença de comunidades indígenas, a exemplo de Campinápolis (MT), Uiramutã (RR) e Dois Irmãos do Buriti (MS).
Já as cidades solitárias que escolheram Flávio Bolsonaro aparecem com mais força no Nordeste e no Norte, além do Norte mineiro. Esse grupo inclui polos do agronegócio situados no Matopiba — como Luís Eduardo Magalhães (BA) e Balsas (MA) —, centros regionais de comércio e até capitais de grande porte, a exemplo de Manaus, que ficou cercada por cidades onde o petista venceu. No sentido contrário, capitais como Rio de Janeiro e Niterói figuram como ilhas de Lula.
Destaques e contrastes expressivos
Entre os 93 casos mapeados, três municípios chamam atenção pelo contraste acentuado entre o resultado interno e o cenário do entorno. Em Sete Quedas (MS), Flávio Bolsonaro alcançou 64,5% dos votos válidos, superando Lula por 29 pontos percentuais, enquanto os vizinhos registraram o comportamento oposto com margens semelhantes.
Em Campinápolis (MT), Lula ficou 15 pontos à frente, ao passo que a vizinhança deu a Flávio uma vantagem média de 44 pontos. O município mato-grossense abriga o cacique José Acácio Serere Xavante, detido em Brasília no final de 2022 por suspeita de participação em atos antidemocráticos.
Já em Montes Claros (MG), o acirrado pleito vencido por Flávio Bolsonaro contrastou com a forte influência petista nas cidades do entorno. O município mineiro destaca-se pela força econômica do comércio, dos serviços e do agronegócio regional, tendo recebido campanhas e eventos com forte apelo da direita em pleitos anteriores.
Metodologia da análise
Para chegar a esses resultados, a pesquisa examinou os dados de todos os 5.570 municípios do país com base na malha territorial oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foram considerados vizinhos todos os limites compartilhados por terra, resultando em uma média de seis cidades limítrofes por localidade.
O critério exigia que o candidato vitorioso no município fosse derrotado em 100% das cidades vizinhas. A contagem priorizou o número de municípios em vez da quantidade de eleitores, garantindo que cidades menores tivessem o mesmo peso analítico que os grandes centros urbanos nas ilhas identificadas.






