A vacina contra a hepatite B é distribuída de graça pelo SUS e está disponível para todas as idades desde 2016. Contudo, moradores de áreas distantes na região Norte e na Amazônia ainda enfrentam barreiras de transporte e atendimento que dificultam o diagnóstico, a imunização e o acompanhamento médico adequado.
Desafios na imunização e os números da doença
Indivíduos nascidos antes da expansão do calendário de vacinação ou que ficaram sem assistência médica continuam vulneráveis ao vírus. O Ministério da Saúde registrou cerca de 4.600 casos confirmados de hepatite B no Brasil em 2025.
Esses dados refletem apenas os registros notificados no período. Como a infecção pode evoluir sem sintomas por longos anos, muitos pacientes recebem o diagnóstico apenas em exames preventivos, triagens de doação de sangue ou acompanhamentos de rotina.
Como a infecção se torna crônica no organismo
A faixa etária no momento da contaminação altera o curso da enfermidade. Enquanto grande parte dos adultos elimina o vírus de forma natural e adquire imunidade duradoura, a infecção na primeira infância apresenta um risco elevado de cronificação.
O quadro crônico se estabelece quando o organismo não consegue banir o patógeno, que se abriga no fígado. O próprio sistema imunológico, ao tentar destruir as células infectadas, provoca lesões hepáticas que podem evoluir para fibrose e cirrose ao longo dos anos.
O papel dos tratamentos atuais e o reservatório viral
O SUS fornece tratamento gratuito com medicamentos como entecavir e tenofovir, que bloqueiam uma etapa fundamental da multiplicação do vírus HBV, diminuindo a carga viral no sangue e o risco de agravamentos.
Apesar disso, suprimir a replicação viral difere da erradicação completa. O DNA do vírus pode se transformar em uma estrutura estável chamada cccDNA dentro dos hepatócitos, atuando como um reservatório persistente que mantém a produção de proteínas virais, a exemplo do antígeno HBsAg.
Avanço promissor com o RNA de interferência
Para alcançar a chamada cura funcional — caracterizada pela ausência de vírus detectável e perda sustentada do HBsAg —, cientistas estudam o uso de moléculas de RNA de interferência, ou RNAi. Essa tecnologia identifica e degrada o RNA viral antes que ele dê origem a proteínas nocivas.
Testes iniciais em laboratório com células hepáticas cultivadas demonstraram redução nos níveis de HBsAg. Contudo, os pesquisadores ressaltam que o modelo atual possui limitações e não reproduz todas as etapas de uma infecção real.
Próximos passos e cooperação internacional
O estudo avança agora por meio de uma parceria com a KU Leuven, na Bélgica, viabilizando testes em hamsters sírios e em modelos celulares mais próximos da infecção natural. O objetivo é verificar a estabilidade do silenciamento em organismos complexos.
Outro obstáculo tecnológico consiste em garantir que o RNAi alcance o fígado de maneira segura. A proposta futura não visa substituir os antivirais atuais, mas sim atuar em conjunto com eles para proporcionar um controle mais duradouro e efetivo da doença hepática.






