O setor leiteiro nacional vive um momento de transformação com a expansão da Certificação em Biosseguridade (CBS), criada pela Embrapa em parceria com a farmacêutica Boehringer Ingelheim. O modelo tem previsão de alcançar 160 propriedades produtoras de leite em território brasileiro, validando itens que vão desde o manejo de animais até a circulação de pessoas e veículos nas fazendas.
Da pandemia ao protocolo auditável
As bases da iniciativa surgiram de pesquisas conduzidas pela Embrapa Gado de Leite, em Minas Gerais, com foco na prevenção de enfermidades nos rebanhos. Com a chegada da covid-19 em 2020, a necessidade de blindar os plantéis ganhou força, introduzindo na bovinocultura leiteira práticas antes restritas à avicultura e suinocultura, como o uso de rodolúvios e barreiras de acesso.
“O produtor de leite está despertando para a questão da biosseguridade”, afirmava, na época, o pesquisador da Embrapa Alessandro de Sá Guimarães.
Com a certificação, as antigas recomendações viraram rotinas passíveis de auditoria, garantindo que o rebanho não apresente riscos de transmitir doenças zoonóticas como brucelose e tuberculose, além de evitar resíduos químicos no produto final. “Se não temos um registro sanitário confiável, corre-se o risco de enviar leite com resíduo de antibiótico ao tanque”, alerta Wanessa Araújo Carvalho.
Impacto econômico e sustentável no campo
Os reflexos práticos dessa rigidez sanitária já aparecem em grandes produtoras. Na Fazenda Santa Luzia, em Minas Gerais, a adoção de diagnósticos prévios diminuiu drasticamente o uso de medicamentos, cortando pela metade os gastos com remédios para mastite clínica e reduzindo em 70% as intervenções para tristeza parasitária bovina.
Essa precisão evitou o descarte de centenas de milhares de litros de leite durante períodos de carência, gerando uma economia expressiva. “Até 4 em cada 10 tratamentos podem ser evitados no modelo convencional. Elevando o status sanitário da fazenda, reduzimos custos e nos preparamos para o mercado internacional”, avalia o produtor Maurício Coelho.
O desafio global da resistência antimicrobiana
A urgência por mudanças também esbarra em uma pauta sanitária global: a resistência antimicrobiana provocada pelo uso inadequado de remédios em animais. Levantamentos recentes da Boehringer Ingelheim em propriedades paulistas e mineiras apontam que grande parte dos tratamentos para mastite começa sem exames laboratoriais prévios, muitas vezes utilizando princípios ativos vitais para a medicina humana.
“O objetivo não é eliminar tratamentos necessários, mas tomar decisões de maneira responsável, com embasamento técnico”, explica Eduardo Pires Macedo, gerente técnico de Ruminantes da Boehringer Ingelheim.
O valor do selo para o consumidor final
O avanço da CBS também alcança as prateleiras dos supermercados, onde marcas como a Xandô já estampam o selo de qualidade nas embalagens. Pesquisas de mercado indicam que a maior parte dos compradores valoriza a segurança alimentar e demonstra disposição para pagar mais por um alimento com procedência auditada.
Para o futuro, a meta é consolidar essa cultura de prevenção como padrão nacional. “A prevenção, o monitoramento contínuo e a tomada de decisão fundamentada em diagnósticos representam o futuro da pecuária leiteira sustentável”, conclui José Peron, diretor de Saúde Animal da Boehringer Ingelheim no Brasil.






