A trajetória de Cáryta Micaelly, uma jovem de 16 anos natural de Ji-Paraná, em Rondônia, ganhou um novo capítulo após ela ser submetida a um transplante de rim no Hospital da Unicamp, em Campinas, no interior paulista. Convivendo com uma condição renal hereditária desde a infância, a adolescente agora vislumbra uma nova rotina após o procedimento cirúrgico.
Uma década e meia de batalha contra a enfermidade
Diagnosticada com doença renal policística quando tinha apenas três anos, a adolescente precisou contar com o suporte do Tratamento Fora de Domicílio, programa do Sistema Único de Saúde que viabiliza atendimento médico em outros estados quando a cidade de origem não dispõe da estrutura necessária.
Mesmo com o acompanhamento médico constante, a capacidade dos rins de Cáryta despencou para 8% em setembro, exigindo a inclusão de seu nome na lista oficial de espera e a instalação de um cateter para as sessões de hemodiálise. “Foi uma situação difícil, nós começamos a orar e pedir a Deus, e clamar a Deus, foi um desespero grande”, contou o pai, Carlito de Oliveira Lopes.
Diante da ineficácia dos tratamentos convencionais, a equipe médica pontuou a urgência de uma intervenção cirúrgica. Com a mãe da jovem realizando exames para se tornar uma possível doadora, a ligação tão esperada chegou em 28 de outubro. “Eu estava saindo do colégio, meu filho ligou para mim e falou: ‘pai, vem tranquilo para casa, mas vem rápido, porque a médica ligou que apareceu um rim’”, destacou Carlito.
A cirurgia e a conexão emocionante
A operação ocorreu na madrugada de 30 de outubro e surpreendeu os profissionais de saúde pela rapidez na recuperação do órgão. “A gente entende como um milagre. Na mesma noite, na mesma madrugada, o rim começou a funcionar e no outro dia ela já fez xixi. Até as enfermeiras se surpreenderam com a forma da resposta do rim quando foi implantado nela”, relatou o pai.
Embora o sistema de saúde mantenha o sigilo sobre a identidade de doadores e receptores, os familiares da jovem notaram semelhanças impressionantes de dados físicos e cronológicos com o caso de Miguel Meneses, um goleiro de 14 anos que faleceu após um acidente automobilístico em São José dos Campos. “As horas que passava para a Shirley [mãe de Cáryta] que estava sendo retirado o órgão do doador, era exatamente também [a hora] que a reportagem falava que o Miguel estava sendo submetido à remoção dos órgãos dele para doação”, comenta o pai.
Por meio das redes sociais, os parentes de Rondônia conseguiram conversar com Ana Tereza Meneses, genitora do atleta. “Eu estava em prantos, pedindo para o Senhor me ajudar, curar o meu coração. Eu falei para ela: ‘No momento eu estou em prantos, mas muito feliz porque eu sei que tem uma mãe do outro lado que está feliz, que o meu filho deu vida à filha dela'”, relembra Ana Tereza.
O impacto da solidariedade
Para o pai da adolescente, o procedimento representa uma verdadeira transformação. “Para mim, ela começa a viver novamente agora. A restrição que tem uma pessoa que tem uma doença dessa, restrição alimentar, restrição de atividade. A minha filha, ela é impossibilitada de fazer várias atividades. Você vê o sofrimento deles. Então, para mim, agora vai ser um recomeço de vida na vida da Cáryta”, celebrou.
A decisão de autorizar a captação partiu da família do jovem atleta logo após a confirmação da morte encefálica. “Eu, meu esposo, o meu filho Benício, um olhou pro outro e foi unânime: ‘vamos doar os órgãos do Miguel’. Foi exatamente isso e a gente nunca tinha falado sobre isso e a gente sabia que o Miguel iria fazer isso. Ele faria isso porque ele amava muito as pessoas, ele amava muito os jovens”, rememorou a mãe.
Ao final, Ana Tereza destaca a importância do gesto que ajudou a salvar vidas. “Se as pessoas se conscientizassem da alegria e do amor que recebe ao você fazer um ato desse de doar os órgãos do seu filho, do seu familiar, o retorno é incrível, porque você sente o amor das pessoas em você. Você conseguiu doar os órgãos dele para dar vida a outras pessoas, enquanto vivem aqui na terra, não tem preço, não tem preço”, concluiu.






