A substituição do sal de cozinha tradicional por uma alternativa que contém menos sódio e mais potássio tem o potencial de prevenir quase 3 milhões de mortes anualmente em todo o planeta, de acordo com projeções científicas recentes.
Como o tempero atua no organismo
O excesso de sódio faz o corpo reter líquidos, ampliando o volume sanguíneo e deixando as artérias mais rígidas, o que resulta na elevação da pressão. Por outro lado, o potássio estimula os rins a eliminarem o sódio através da urina e promove o relaxamento dos vasos sanguíneos. Como a população consome muito mais sódio do que o necessário e pouquíssimo potássio, o uso do sal enriquecido consegue corrigir esses dois problemas simultaneamente.
Para Elzo Mattar, cardiologista, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), o mineral desempenha um papel fundamental nesse processo.
O impacto da mudança na rotina doméstica
A modelagem matemática publicada na revista Nature Health indica que a maior parte desse ganho em saúde pública virá do preparo de refeições no próprio lar. Modificar apenas o tempero utilizado em casa poderia evitar 1,85 milhão de óbitos todos os anos, o que representa aproximadamente 63% de todo o benefício projetado pela pesquisa.
O cirurgião cardiovascular Ricardo Kazunori, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, aponta que, embora o consumo de industrializados e deliverys esteja em alta no país, o saleiro caseiro continua sendo o principal motor do consumo excessivo, já que a diretriz de 5 gramas diários dificilmente é seguida nas residências.
Cuidados necessários com a saúde renal
Apesar dos benefícios evidentes, o aumento do potássio exige cautela, especialmente entre indivíduos que apresentam problemas nos rins. Kazunori descreve o mecanismo: “As células do coração dependem da diferença de carga elétrica entre o lado de dentro e o de fora para se contrair. Quando o potássio sobe demais fora delas, essa diferença diminui e o ritmo pode se desorganizar, chegando à parada cardíaca”.
Perspectivas para o cenário brasileiro
No Brasil, a ingestão diária de sal gira em torno de 9 gramas, quase o dobro do limite máximo aconselhado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Especialistas reforçam que a nova alternativa não dá passe livre para abusos no consumo.
“O sal enriquecido ainda carrega três quartos de sódio, e a meta segue sendo comer menos sal no total, somando tudo o que vai ao prato”, diz Mattar.






