Pesquisando edições antigas do Jornal do Brasil de 1970, é possível encontrar uma crônica curiosa escrita por Carlos Drummond de Andrade. Publicado em 16 de junho, na véspera da semifinal entre Brasil e Uruguai na Copa do México, o texto revela a relação do célebre escritor com o primeiro mundial transmitido ao vivo pela televisão para o público brasileiro.
A tecnologia da época e o contexto histórico
Naquele ano, o Brasil contava com cerca de quatro milhões de aparelhos televisores em funcionamento, mas a esmagadora maioria exibia apenas imagens monocromáticas. Apenas um grupo muito seleto de aproximadamente mil televisores importados conseguia reproduzir as cores captadas pelas câmeras no solo mexicano. A Embratel chegou a organizar sessões especiais para autoridades e jornalistas assistirem às partidas em monitores coloridos.
O poeta abordou essa divisão tecnológica com bom humor e filosofia, defendendo que a ausência de cores na tela permitia uma experiência mais rica através da criatividade: “No momento, somos milhões de brasileiros vendo a Copa do Mundo em preto e branco, e algumas dezenas vendo-a colorida. Faço parte da primeira turma, porém não protesto contra o privilégio da segunda. Talvez até sejamos nós, realmente, os privilegiados, pois nos é concedido o exercício livre da imaginação visual, esse cavalinho sem freio. Podemos ver o estádio de Jalisco recoberto das tonalidades mais deslumbrantes, os atletas mudando continuamente de matiz, fusões e superposições cromáticas, efeito de luz que só o cinema e os crepúsculos classe extra do Arpoador têm condição de oferecer-nos. (…).”
A magia do escrete canarinho na visão do poeta
Para o cronista, os telespectadores limitados pelos aparelhos antigos tinham a vantagem de colorir mentalmente os gramados e os craques da seleção, como Pelé, Tostão, Rivellino, Jairzinho e Gérson. Enquanto isso, quem tinha acesso aos raros monitores coloridos recebia tudo pronto, sem espaço para invenções pessoais.
“(…) Pelé, o mágico, vira arco-íris, na instantaneidade e gênio de suas criações. E tudo é ballet de cor a que vamos assistindo ao sabor da inventiva, na emoção das jogadas, desde que sejamos capazes de inventar. Ao passo que nossos poucos colegas aparentemente mais afortunados, reunidos a convite da Embratel diante da TV em cores, já têm o espetáculo pintado, bandeiras e uniformes dos jogadores com seus tons intransferíveis, os grandes painéis de publicidade com as tintas que apresentam nos muros do mundo inteiro. Levam desvantagem perante nós, os de imaginação solta. Não podem conceber cores novas, todas já estão carimbadas. Sinto vontade de convidá-los a vir para junto de nós, os preto-e-brancos; será que aceitam?”.
Apesar de assistir aos duelos históricos em uma TV monocromática e da óbvia superioridade visual que as cores proporcionavam, o autor transformou a limitação técnica em poesia pura, mostrando que a paixão pelo futebol superava qualquer barreira tecnológica da época.






