A reeleição de Celina Leão (PP) ao governo do Distrito Federal consolidou um cenário de desafio institucional para o próximo mandato. Com a permanência de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Presidência da República, a governadora precisa agora encontrar caminhos para reduzir a tensão entre o Palácio do Buriti e o governo federal, uma relação marcada por embates acirrados ao longo de 2024.
O peso da polarização política
A disputa eleitoral acentuou as diferenças entre as gestões. Celina Leão conduziu sua campanha alinhada a figuras centrais do bolsonarismo, como Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Damares Alves, enquanto o presidente Lula apoiou abertamente o candidato Leandro Grass (PT) na capital federal. Esse alinhamento ideológico, segundo analistas, impõe um custo político para qualquer tentativa de aproximação com o governo central, dado que a base de sustentação da governadora é predominantemente de direita.
A crise do BRB como ponto de atrito
O Banco de Brasília (BRB) figura como o obstáculo mais complexo nesta relação. A instituição enfrenta uma crise sem precedentes após investigações sobre fraudes bilionárias, e o governo distrital busca apoio da União para um aporte de R$ 6,6 bilhões. O diálogo, contudo, tornou-se hostil em setembro, quando o presidente Lula negou a possibilidade de auxílio financeiro. Na ocasião, o presidente afirmou: “Vocês estão acompanhando o que aconteceu com o BRB. A governadora, de forma cínica e mentirosa, quer jogar a responsabilidade no governo federal”.
Disputas no STF e Fundo Constitucional
Além da questão bancária, o governo do DF recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF) para contestar uma legislação federal que, segundo o Palácio do Buriti, coloca em risco os repasses do Fundo Constitucional. O litígio envolve regras de ajuste fiscal que podem impactar diretamente o orçamento da saúde, segurança e educação do DF, transferindo parte da discussão para a arena jurídica.
Perspectivas para o diálogo
Para o professor Frederico Bertholini, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, o sucesso de Celina Leão dependerá de sua habilidade em separar a agenda administrativa da eleitoral. Embora o PP possua influência na Câmara dos Deputados, o que pode abrir canais indiretos de negociação, a governadora está limitada pelo calendário político, já que não poderá disputar a reeleição em 2030 e depende do apoio do campo bolsonarista para seus próximos passos na carreira.
Apesar dos conflitos passados, a governadora sinalizou disposição para manter o canal de comunicação aberto com o Palácio do Planalto. Em entrevista recente, ela declarou: “As pessoas esperam que uma governadora esteja sempre pronta para dialogar. Eu estou à altura de Brasília. Todas as vezes que eu precisar de buscar o presidente da República, eu vou buscá-lo, vou buscar uma interlocução para trazer aquilo que for necessário para o DF”.






