Uma nova tecnologia de inteligência artificial foi desenvolvida por meio de uma cooperação internacional entre cientistas da Universidade de Uppsala, na Suécia, e da Universidade de São Paulo. O sistema tem como objetivo auxiliar equipes médicas e socorristas no reconhecimento ágil do tipo mais perigoso de ataque cardíaco, caracterizado pelo entupimento completo das artérias.
Funcionamento e base de dados
O algoritmo foi treinado com mais de 540 mil exames de eletrocardiograma vindos de unidades de emergência suecas e posteriormente validado com informações de pacientes atendidos no InCor e na Universidade Federal de Minas Gerais. O modelo utiliza o exame tradicional de 12 derivações para escanear os dados digitais e revelar a obstrução aguda, indicando inclusive o ponto exato da artéria comprometida.
“Nos casos de infarto agudo do miocárdio, as decisões precisam ser rápidas, pois cada minuto importa. Se a artéria estiver totalmente obstruída e não permitir levar o oxigênio, o músculo cardíaco morre e isso é irreversível. Por isso, o tempo é o grande definidor [do prognóstico]. A ferramenta de IA poderá dar mais agilidade ao processo”, conta o diretor do Laboratório de Genética e Cardiologia Molecular do InCor-USP (Instituto do Coração), José Eduardo Krieger.
Desafio dos sinais sutis
Reconhecer um infarto severo nem sempre é simples porque grande parte das ocorrências não exibe o marcador clássico conhecido como supradesnivelamento do segmento ST nos traçados do monitoramento cardíaco.
“Há pacientes com 100% de oclusão cujo ECG não apresenta os padrões clássicos esperados. Nessas situações, o médico precisa integrar informações clínicas, como a presença de dor torácica, exames laboratoriais para dosagem de biomarcadores cardíacos, como a troponina, e exames de imagem complementares para confirmar o diagnóstico. O problema é que, em um infarto, cada minuto conta. A IA ajuda a revelar sinais sutis que podem não ser vistos no traçado”, explica Krieger.
Precisão e segurança em ambulâncias
Em locais onde o transporte até o hospital demora, profissionais em ambulâncias costumam enfrentar dúvidas sobre a administração de trombolíticos, medicamentos que salvam vidas, mas que trazem riscos severos como o acidente vascular cerebral hemorrágico.
“A IA funciona como um classificador de alta precisão que dá mais segurança para agir quando o benefício supera o risco”, afirma o pesquisador, que coordena um projeto apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).
Nos testes realizados, a tecnologia atingiu uma taxa de acerto de 96% em exames que continham as alterações evidentes do padrão tradicional. Nos cenários mais complexos, onde os sinais são discretos e desafiam a rotina clínica, o índice de assertividade alcançou 82% das avaliações.
Papel de suporte na medicina
Os criadores da tecnologia reforçam que a inovação digital foi concebida exclusivamente para dar suporte à equipe de saúde, sem assumir o papel soberano no diagnóstico definitivo ou na conduta terapêutica a ser adotada.
“A IA não fornece o diagnóstico final nem substitui o julgamento clínico do médico. Seu papel é atuar como uma ferramenta de apoio à decisão, identificando rapidamente padrões de risco que podem passar despercebidos em situações de alta pressão assistencial. Em cenários críticos, ela pode contribuir para reduzir atrasos diagnósticos, minimizar erros e auxiliar equipes que precisam avaliar simultaneamente grande número de pacientes”, afirma Krieger.
O próximo passo para a consolidação do método envolve testes adicionais em rotinas reais de atendimento no hospital paulista e a obtenção da autorização regulatória da Anvisa antes de sua liberação definitiva para o uso clínico generalizado.






