Mais de cinco décadas após ter sido submetida a sessões de tortura nos porões do regime militar, a aposentada Robêni Baptista da Costa ficou frente a frente com o registro formal de seu próprio interrogatório. O documento histórico estava guardado no acervo da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e veio à tona graças ao trabalho de preservação documental desenvolvido na instituição.
O reencontro com a própria memória
O resgate do documento uniu a trajetória de Robêni à de Joana Bernadete de Campos, conhecida como Jô. Funcionária da Unicamp há 47 anos, Joana ingressou como servente e, após prestar concurso interno, passou a se dedicar aos arquivos da universidade, setor onde atua há 38 anos recuperando papéis antigos e deteriorados.
Ao se deparar com as folhas que continham as anotações feitas pelas autoridades da época, a aposentada não conteve a emoção diante da arquivista. “Eu nunca tinha visto. Então, eu estou muito emocionada. Estou muito emocionada. Porque em algum lugar, a palavra me preservou”, disse Robêni, diante do documento.
A ex-aluna da Unicamp fez questão de agradecer diretamente à bibliotecária pelo resgate do material. “Eu fico feliz de saber que você existe, que você me proporcionou esse momento de reencontro com a minha história. É a minha história. Muito obrigada, Jô.”
A sobrevivente também destacou o papel fundamental dos centros de memória para impedir o negacionismo histórico. “Ninguém pode dizer que a ditadura não existiu, né? E é o trabalho de vocês que permite que a gente continue existindo através dessa palavra”, afirmou.
As marcas da repressão no DOI-Codi
A militância de Robêni começou na própria universidade, onde ingressou como estudante durante o regime de exceção e participou ativamente, em 1974, daquela que é apontada como a primeira greve estudantil da história da Unicamp. A perseguição política a levou aos cárceres do DOI-Codi, na Rua Tutóia, na capital paulista — espaço emblemático da repressão estatal onde, em 1975, o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado.
As agressões físicas e psicológicas sofridas no prédio marcaram sua vida de forma permanente. Durante os depoimentos forçados, a violência se intensificava caso os agentes não obtivessem as respostas desejadas. “Muito choque elétrico. A pior foi nas orelhas, eles colocam dois fios nas orelhas e a impressão que eu tenho até hoje é que o cérebro estava dentro de um liquidificador.”
A materialidade dessa violência tem sido confirmada por investigações científicas. Escavações arqueológicas no antigo prédio do DOI-Codi com participação de especialistas da Unicamp desenterraram milhares de itens pessoais das vítimas, incluindo fragmentos de peças íntimas manchadas e bijuterias. Segundo a arqueóloga Aline Vieira de Carvalho, da Unicamp, esses achados arqueológicos dialogam com as memórias orais e a documentação escrita para expor a rotina e a dimensão das violações cometidas pelo Estado.
A salvaguarda da memória contra o esquecimento
Criada em 1966, a Unicamp abriga um amplo conjunto de arquivos que abrange desde raridades como manuscritos litúrgicos do século XIII até relatórios de inteligência e perseguição política do século XX. O trabalho de conservação garante que histórias individuais e coletivas permaneçam acessíveis às futuras gerações.
“Um arquivo é o lugar onde a gente vai decidir quais mortos a gente vai ouvir. É um lugar de escuta dos mortos do passado”, refletiu Gustavo Rossi, antropólogo e diretor do Arquivo Edgard Leuenroth (AEL), da Unicamp.
Atualmente, Robêni leva uma vida tranquila e isolada em Barão Geraldo, distrito de Campinas próximo às margens do Rio Atibaia. Ciente do peso dos fatos que vivenciou, ela expressa a preocupação de que seu testemunho não se perca no tempo. Diante dos documentos preservados pela universidade, deixou uma pergunta sobre o futuro: “Eu espero que no momento em que eu vá-me embora, e que vai ser logo, que alguém conte a minha história. Quem será que vai contar a minha história?”






