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Balanço da economia no governo Lula 3 mostra avanço do PIB, mas aperto com juros e dívidas

PIB cresceu, desemprego caiu, mas juros e dívidas pesaram: veja o balanço da economia de Lula 3

O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi marcado por crescimento econômico, recuo do desemprego para o menor nível da série histórica e avanço na renda média dos trabalhadores. Apesar desses indicadores favoráveis, a gestão enfrentou forte resistência política, refletida na vitória apertada de Lula sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno da eleição presidencial.

Crescimento do PIB e os limites dos indicadores agregados

Os resultados positivos da atividade econômica não se traduziram em uma sensação generalizada de bem-estar financeiro para a população. Especialistas apontam que o avanço não beneficiou todos os setores igualmente, enquanto o custo de vida e o endividamento continuaram pressionando o orçamento das famílias.

Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), explica que as estatísticas gerais mascaram desigualdades profundas entre diferentes camadas sociais.

“O PIB é uma média que reúne setores e famílias que estão, digamos, uns no micro-ondas e outros que estão no freezer. A média parece boa, mas não necessariamente está melhor para todo mundo.”

No mercado de trabalho, o cenário também apresenta disparidades. De acordo com José Luis Oreiro, professor do departamento de economia da Universidade de Brasília (UnB), a criação de postos de trabalho ocorreu predominantemente em serviços de menor qualificação, sem o mesmo dinamismo em funções que exigem ensino superior e oferecem remunerações mais altas.

Endividamento das famílias limita alívio da renda

A pressão financeira sobre os cidadãos brasileiros é agravada pelo custo elevado do crédito e pelo acúmulo de dívidas, que reduzem a parcela do orçamento disponível para o consumo cotidiano. Dados do Banco Central indicam que o comprometimento da renda mensal com dívidas permaneceu próximo ao recorde histórico, enquanto a proporção de famílias endividadas aumentou expressivamente desde o início do mandato.

Para tentar conter esse cenário, o governo implementou três edições do programa Desenrola. Alessandra Ribeiro, sócia e economista da Tendências Consultoria, avalia que as medidas auxiliam no alívio de curto prazo, mas falham em resolver os gargalos estruturais.

“As duas primeiras mobilizaram renegociações intermediadas por plataformas que conectavam bancos e famílias. Já a terceira edição buscou ampliar a coordenação do governo federal com as instituições financeiras para obter descontos maiores que poderiam superar 90%.”

“Sem essas mudanças, a família pode usar o dinheiro liberado para cobrir outras pendências e voltar a se endividar”, complementa a economista sobre a permanência dos juros altos.

Déficit público e impactos na taxa Selic

A condução da política fiscal e o controle dos gastos públicos também geraram debates intensos entre analistas econômicos. A dificuldade em obter superávits primários e a expansão de despesas obrigatórias mantiveram a dívida bruta em patamares elevados, pressionando a inflação e a taxa básica de juros.

Silvia Matos critica a expansão orçamentária ocorrida logo no início da administração federal sem o devido respaldo de receitas permanentes.

“O governo entrou com acelerador a mil, tendo os gastos da PEC da Transição sem assegurar de onde viriam as receitas para financiá-los. Ele já entrou com um buraco fiscal muito maior para o período de quatro anos.”

Com a Selic em patamares elevados, o encarecimento do crédito desestimulou investimentos corporativos e adiou o consumo de bens duráveis pelas famílias, reduzindo o ritmo da atividade econômica geral.

Reforma tributária e autonomia do Banco Central

Em meio aos desafios fiscais, os especialistas destacam pontos positivos na agenda econômica do governo, como a aprovação da reforma tributária sobre o consumo e a preservação da autonomia do Banco Central.

Sobre a condução da política monetária sob a gestão de Gabriel Galípolo, Silvia Matos pontua:

“Ele surpreendeu muito positivo. Ele tem o nome dele a zelar e sabe que se jogar a toalha, desanda tudo. O Banco Central é muito técnico e tem a independência.”

No comércio exterior, Alessandra Ribeiro elogia a estratégia de diversificação de parceiros comerciais para diminuir a dependência econômica em relação aos Estados Unidos e à China.

“O governo buscou reduzir a vulnerabilidade do Brasil em relação à EUA e China, buscando outros mercados, fazendo acordos comerciais com outras regiões como UE-Mercosul. Há ainda negociações com o Japão e o Canadá.”

Polarização política e frustração de expectativas

Fatores comportamentais e políticos também moldaram a percepção pública sobre a economia. Mudanças sociais, como a valorização do empreendedorismo na classe C, evidenciaram uma desconexão entre as propostas tradicionais do Partido dos Trabalhadores e os anseios de parte do eleitorado.

Para Silvia Matos, a vitória eleitoral ocorreu por meio de uma frente ampla, o que exigiria diretrizes mais moderadas:

“O PT acha que venceu as eleições de 2022, quando, na verdade, foi o Bolsonaro que perdeu. Quem venceu, de fato, foi a frente ampla. A agenda, do ponto de vista político e econômico, era para ser mais de centro.”

Por fim, José Luis Oreiro aponta que a retomada de Lula à presidência gerou expectativas de prosperidade comparáveis aos mandatos anteriores, gerando frustração diante de uma melhora econômica considerada insuficiente pelos cidadãos.

“As pessoas estavam muito esperançosas que ele retornaria com a prosperidade do governo Lula 1 e 2, até do governo Dilma 1. Houve uma frustração de expectativas: melhorou, mas não o que as pessoas esperavam. Os brasileiros lembram de como era bom em 2011 e 2012, e ainda não voltaram àquele padrão.”

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