O encerramento do modelo tradicional de revezamento de folgas foi classificado pelo presidente-executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), Paulo Solmucci, como uma “tragédia socioeconômica”. Em entrevista recente, o dirigente destacou que a mudança na legislação trabalhista pode elevar os preços ao consumidor, diminuir a oferta de serviços e sufocar empresas que já enfrentam dificuldades financeiras.
Para a entidade, a aprovação da PEC que reduz a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas trará consequências severas para a economia. A proposta, validada pelo Senado em outubro em dois turnos, prevê uma transição gradual passando primeiro por 42 horas semanais. No entanto, o setor produtivo alerta que o país não possui mão de obra suficiente para absorver a exigência de um dia adicional de descanso sem comprometer as operações.
Impactos generalizados além da alimentação fora do lar
Segundo levantamento da Abrasel, cerca de 15 milhões de trabalhadores com carteira assinada atuam atualmente no regime de seis dias de trabalho por um de descanso. Para manter o mesmo nível de atendimento com a nova regra, o Brasil precisaria de aproximadamente 3 milhões de novos profissionais.
“Para nós, a aprovação é uma tragédia socioeconômica anunciada”, disse Solmucci.
O dirigente explicou que a escassez de profissionais gerará uma intensa disputa por trabalhadores no mercado. Na visão dele, empresas com maior poder financeiro conseguirão atrair funcionários de estabelecimentos menores, criando uma dinâmica desleal.
“Vai ser um ‘rouba-monte’”, afirmou o dirigente.
Aumento nos cardápios e perda de poder de compra
O setor de alimentação fora do lar projeta um salto de 20% nos gastos com a folha salarial para manter os estabelecimentos abertos por seis dias na semana. O repasse integral aos clientes elevaria os valores cobrados nos cardápios de 7% a 8%, porcentagem que pode chegar a 10% quando somados os reajustes de fornecedores e prestadores de serviços.
“Se fosse só o repasse na folha, teríamos aumento de 7% a 8% no cardápio, mas com outros serviços esse preço pode chegar aí até 9%, 10% a mais”, declarou.
Além dos restaurantes, o impacto será sentido em hospitais, condomínios, escolas privadas e serviços terceirizados por prefeituras. No caso dos garçons, a redução dos dias trabalhados pode cortar drasticamente o valor recebido em gorjetas, que hoje representam cerca de dois terços da remuneração total desses profissionais, levando-os a buscar outras ocupações.
Alternativas e cenários futuros para o mercado
Diante de um panorama em que 40% dos bares e restaurantes operam no limite financeiro e 20% registram prejuízo, a Abrasel defende a regulamentação do trabalho remunerado por hora. A medida traria mais flexibilidade para negócios e funcionários, permitindo conciliar o emprego com estudos ou cuidados familiares.
“Quando você olha para todo esse conjunto e para esse impacto, estamos jogando o país numa recessão”, afirmou, criticando o foco político na medida. “O que pautou foi o calendário eleitoral e não o interesse do cidadão”.






