Na véspera do primeiro turno das eleições, na noite de 3 de outubro, o bispo de Formosa (GO), dom Adair José Guimarães, arrancou aplausos durante a homilia na Catedral de Brasília: “Pedimos a Nossa Senhora que nos livre da peste, da fome e do comunismo”.
A oposição doutrinária e as raízes históricas O pedido de dom Adair é respaldado pela Igreja Católica desde o século XIX. Na encíclica Qui Pluribus, Pio IX criticou o comunismo, que ganhava adeptos entre movimentos revolucionários europeus. Ainda faltavam dois anos para Karl Marx e Friedrich Engels publicarem o Manifesto Comunista. Trinta e dois anos depois, Leão XIII retomou o assunto em Quod Apostolici Muneris.
Os papas se opunham à visão materialista da sociedade e à ideia de abolição da propriedade privada. O marxismo acrescentou a essa discussão a luta de classes como motor da transformação social. Marx considerava a religião uma resposta ao sofrimento humano, mas acreditava que ela oferecia um consolo ilusório, em vez de eliminar as causas desse sofrimento. Por isso, em 1844, chamou-a de “ópio do povo”. Para a Igreja, a dignidade humana e a liberdade religiosa não podiam depender da organização econômica ou da vontade do Estado.
Conflitos na União Soviética e na Europa Oriental A discussão deixou o campo teórico em outubro de 1917, quando os bolcheviques tomaram o poder na Rússia. O regime confiscou propriedades religiosas, fechou instituições de ensino e restringiu as atividades das igrejas. A repressão atingiu principalmente a Igreja Ortodoxa Russa, majoritária no país, mas também os católicos e outras comunidades.
As perseguições se intensificaram sob Josef Stalin e levaram Pio XI a publicar, em 1937, a mais contundente condenação pontifícia ao comunismo. Na encíclica Divinis Redemptoris, o papa denunciou o materialismo ateu e a repressão soviética: “O comunismo é intrinsecamente perverso e não se pode admitir em campo nenhum a colaboração com ele, da parte de quem quer que deseje salvar a civilização cristã”.
Oito anos depois, em abril de 1945, agentes soviéticos prenderam Josyf Slipyj, líder da Igreja Greco-Católica ucraniana, e outros quatro bispos. Para o governo soviético, a submissão desses religiosos à autoridade do papa, em Roma, significava a influência de um poder estrangeiro sobre a Igreja ucraniana. Em março do ano seguinte, sacerdotes alinhados ao regime se reuniram para anunciar o rompimento com o Vaticano e a incorporação à Igreja Ortodoxa Russa. Nenhum bispo participou da decisão; todos estavam presos.
As autoridades haviam retirado o reconhecimento legal da Igreja Greco-Católica, que continuou a celebrar missas, administrar sacramentos e formar religiosos clandestinamente. Segundo os pesquisadores Roman Solchanyk e Ivan Hvat, a repressão já havia atingido cerca de 740 sacerdotes, entre presos, deportados e religiosos obrigados a se esconder.
Perseguições na Ásia e resistência na China Na China de Mao Tsé-Tung, o governo também procurou afastar os católicos da autoridade do papa. Depois da vitória comunista de 1949, o novo regime restringiu a atuação das organizações religiosas. Em 1957, criou a Associação Patriótica Católica Chinesa, vinculada ao Estado, e passou a promover a nomeação de bispos sem autorização de Roma.
Entre os religiosos perseguidos estava o jesuíta Dominic Tang, bispo de Guangzhou. Preso em 1958, ele passou 22 anos na cadeia, parte deles em isolamento. Foi libertado em 1980 e, no ano seguinte, viajou a Roma, onde João Paulo II o nomeou arcebispo. A reação das autoridades chinesas foi imediata. A Associação Patriótica Católica rejeitou a nomeação e destituiu Tang de seu posto. Impedido de retornar à China continental, o religioso se estabeleceu em Hong Kong, de onde continuou a defender a liberdade religiosa. Morreu em junho de 1995, aos 87 anos, sem conseguir retornar à sua diocese.
Diplomacia vaticana e o cenário em Cuba A condenação ao comunismo não impediu o Vaticano de negociar com os regimes. Em 1963, depois de contatos com autoridades soviéticas, a Santa Sé conseguiu a libertação di Slipyj, preso havia 18 anos. No ano seguinte, firmou um acordo com a Hungria. Também buscou entendimento com outros países do bloco comunista, embora as tentativas de aproximação com a China tenham encontrado resistência.
Em Cuba, os contatos diplomáticos ocorreram em meio à repressão religiosa. Fidel Castro chegou ao poder em 1959; dois anos depois, poucas semanas depois da fracassada invasão da Baía dos Porcos, seu governo nacionalizou o ensino privado e confiscou cerca de 245 escolas católicas. Igrejas foram ocupadas e sacerdotes foram presos, acusados de colaborar com a contrarrevolução. O representante pontifício Cesare Zacchi chegou à ilha naquele ano e assumiu, em 1962, a condução dos contatos diplomáticos com o governo. Com acesso pessoal a Fidel, passou a negociar medidas para preservar a atuação da Igreja no país. Segundo o pesquisador Thomas Quigley, a intervenção de Zacchi contribuiu para libertar sacerdotes presos e barrar um plano de enviá-los a campos de trabalho forçado.
O impacto de João Paulo II e o cenário atual Em 1978, a eleição de João Paulo II deu maior visibilidade à oposição da Igreja aos regimes comunistas. Nascido na Polônia, Karol Wojtyła conhecia as restrições impostas à Igreja pelo governo de seu país. Em junho de 1979, voltou à terra natal como pontífice e foi recebido por multidões. Em Varsóvia, aproximadamente 250 mil pessoas acompanharam a missa celebrada na Praça da Vitória.
A presença de tantos fiéis mostrou que a Igreja conservava uma influência que o governo comunista não conseguira eliminar. Em 1980, surgiu o sindicato Solidariedade, liderado por Lech Wałęsa, que passou a desafiar o regime polonês. João Paulo II apoiou o movimento e, em 1983, encontrou-se com Wałęsa, quando o sindicato já havia sido proibido pelas autoridades. O Solidariedade desempenharia um papel importante na queda do regime, em 1989.
Três anos depois da queda dos regimes comunistas no Leste Europeu, a Igreja reafirmou sua posição no Catecismo da Igreja Católica, publicado em 1992, que rejeita as ideologias totalitárias e ateias associadas ao comunismo e ao socialismo. Essa condenação permanece na doutrina católica até hoje e é válida para os fiéis de todo o mundo.






