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Vaticano descarta terapia extra para câncer de pulmão do Papa Leão XIV

Por que alguns cânceres de pulmão precisam de tratamento adicional depois da cirurgia e outros não, como o do Papa

O câncer de pulmão do Papa Leão XIV não se espalhou e não exigirá tratamento adicional depois da cirurgia da semana passada, informou o Vaticano nesta quarta-feira (21). A decisão segue uma lógica da oncologia: quando o adenocarcinoma é descoberto cedo e retirado por inteiro, a operação pode ser o tratamento completo, enquanto tumores que alcançam os linfonodos, deixam células na borda do tecido removido ou carregam certas alterações genéticas costumam pedir reforço com remédios ou radioterapia.

Detalhes do boletim médico

Segundo a nota, assinada pelos médicos Luigi Carbone e Stefano Margaritora, a doença estava localizada e a cirurgia de 13 de outubro foi suficiente para removê-la. O comunicado não detalha o estadiamento do tumor –popularmente chamado de estágio– nem o resultado das mutações. Na mesma quarta-feira, o pontífice, de 71 anos, participou da primeira audiência semanal desde a operação e passeou de papamóvel pela praça.

Quando a cirurgia basta

O adenocarcinoma nasce nas células que revestem as vias respiratórias e costuma se formar na parte mais periférica do pulmão. É o tipo mais comum de câncer de pulmão e o que mais aparece também em quem nunca fumou, embora o cigarro seja, de longe, a principal causa da doença. Enquanto o tumor fica restrito ao pulmão, retirar a parte afetada pode eliminá-lo, e esse é o cenário de maior chance de cura. O oncologista Stephen Stefani, do grupo Oncoclínicas e especialista da Americas Health Foundation, afirma que, quando o tumor é identificado cedo, a chance é altíssima. Nos dados da Associação Internacional para o Estudo do Câncer de Pulmão (IASLC), a sobrevida em cinco anos chega a 90% a 92% no estágio mais inicial, e despenca à medida que a doença avança: no estágio 3, fica entre 12% e 41%.

Tumor quase nunca dá sinais

Chegar cedo ao diagnóstico é o ponto difícil. O câncer de pulmão costuma crescer em silêncio, e os tumores da borda do órgão geralmente não provocam sintoma respiratório algum. Quando os sinais surgem, são tosse que não alivia, falta de ar desproporcional ao que a pessoa está acostumada, infecções de repetição e perda de peso sem motivo, segundo Stefani e o Instituto Nacional de Câncer (Inca). O tumor do Papa foi encontrado em exame de rotina, o que, para Stefani, aumenta a taxa de cura. Esse não é o caminho mais comum. Um levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), com dados do Painel de Oncologia do Sistema Único de Saúde (SUS), mostra que 87% dos pacientes com estadiamento registrado entre 2020 e 2025 descobriram a doença nos estágios 3 e 4, os mais avançados. Os especialistas ressalvam que nem todos os pacientes passam pelo estadiamento, mas o padrão se repete. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) informa que apenas cerca de 15% dos casos podem ser operados no momento do diagnóstico.

O que o laboratório examina depois da operação

A peça retirada segue inteira para o patologista, o médico que estuda o tecido ao microscópio. O cirurgião torácico Ricardo Terra, professor da Universidade de São Paulo (USP) e presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Torácica, explica que a retirada inteira é um princípio da cirurgia contra o câncer, porque garante uma margem de tecido saudável ao redor do tumor e diminui a chance de a doença voltar. O laboratório confirma se essa margem foi obtida e mede o tamanho do tumor. Também analisa os linfonodos, pequenas estruturas do sistema de defesa que funcionam como pontos de passagem quando as células do câncer começam a sair do pulmão. Parte dessa investigação acontece antes da operação, com exames de imagem como o PET-CT, que mostra a atividade das células do tumor pelo corpo, e a presença de linfonodos suspeitos pode levar o médico a retirar um deles antes, para confirmação. Stefani afirma que ninguém deve ir à cirurgia sem estadiamento adequado, e que o objetivo é saber se a doença ainda é cirúrgica. Por fim, o laboratório procura no tumor as mutações, alterações genéticas que indicam se há remédios feitos sob medida para ele, pesquisa que Stefani considera obrigatória em todo paciente com adenocarcinoma.

Quando entra o tratamento adicional

Se há células de câncer nos linfonodos ou o estágio é mais avançado, passam a ser indicados tratamentos que agem no corpo todo: quimioterapia, imunoterapia, que ajuda o sistema de defesa a reconhecer as células doentes, ou terapia direcionada, em comprimidos que atacam características específicas do tumor. A escolha depende do estágio e das mutações encontradas, explica Stefani. Mesmo em tumores um pouco maiores, a cirurgia pode ser seguida de quimioterapia ou imunoterapia para reduzir o risco de recaída. A radioterapia tem papel mais restrito. Pode complementar a cirurgia quando a margem do tecido retirado fica comprometida e, em tumores muito pequenos, ser usada de forma localizada no lugar da operação, o que Stefani considera difícil de recomendar, já que retirar o tumor permite analisá-lo e confirmar o diagnóstico.

Sem tratamento adicional, mas com acompanhamento

Dispensar o tratamento complementar não significa encerrar o cuidado. O Inca recomenda tomografia a cada três meses nos dois primeiros anos e a cada seis meses até o quinto, período em que se concentra a maior parte dos retornos da doença, e depois uma por ano, já que o risco de um novo tumor persiste. A tomografia de baixa dose, que usa menos radiação que o exame comum, é também a estratégia para encontrar o tumor antes dos sintomas em grupos de risco, como fumantes e ex-fumantes de 50 a 80 anos com carga tabágica elevada. O Brasil ainda não tem rastreamento no SUS, e o Inca conduz uma pesquisa de dois anos para definir como implantá-lo.

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