O Brasil busca manter o reconhecimento de território livre da circulação endêmica do sarampo, conquistado no final de 2024, em um cenário internacional desafiador. Nações vizinhas acumulam dezenas de milhares de diagnósticos, com destaque para a Bolívia e para o Peru, que já contabiliza aproximadamente três mil ocorrências da enfermidade, conforme destacou ao g1 o diretor do Departamento Nacional de Imunizações (DPNI), Eder Gatti.
Metas de vacinação continuam distantes nos estados Diante desse panorama, o Ministério da Saúde prioriza a ampliação da imunização com a tríplice viral — que também combate caxumba e rubéola — e o monitoramento rigoroso nos municípios fronteiriços localizados no oeste amazonense.
Apesar de o território nacional registrar o melhor índice de aplicação do imunizante desde 2016, nenhuma unidade federativa alcançou o patamar recomendado de 95% de cobertura em menores de dois anos com duas aplicações anuais. Esse percentual é indispensável para bloquear a propagação de um dos agentes infecciosos mais transmissíveis da atualidade.
A imunização completa com ambas as doses permanece abaixo de 80% em território brasileiro. Enquanto o esquema vacinal com uma dose assegura imunidade de 94% a 96%, o protocolo duplo eleva essa proteção para patamares superiores a 97%.
Em 2024, a faixa etária de até cinco anos atingiu 91% na segunda dose, índice ainda inferior ao recomendado. Já o levantamento estadual mostra lideranças como o Paraná (89,92%) e Minas Gerais (87,62%), enquanto o Pará registrou o menor índice, com 58,25%.
Riscos trazidos por casos importados A ausência de transmissão autóctone contínua — cujo último registro ocorreu no Amapá em junho de 2022 — não elimina os riscos associados à entrada de viajantes infectados.
Em 2025, o país contabilizou 39 ocorrências, número que saltou para mais de 50 casos em 2026, com maior concentração no estado de São Paulo, aponta o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
“Quando a gente atinge mais de 95% da população vacinada, a gente impede que esses casos importados se traduzam por uma transmissão sustentada da doença, mantendo a circulação do vírus aqui. Então a gente precisa não só ter coberturas elevadas, mas também homogêneas, porque bolsões de baixas coberturas podem também ter o mesmo efeito da cobertura não tão ideal”, explica Kfouri.
Para o especialista, o fluxo constante de pessoas nas fronteiras torna inevitável o ingresso do vírus.
“É inexorável a entrada de pessoas com sarampo aqui no país, já que o deslocamento populacional, milhares de pessoas vêm desses países vizinhos diariamente por fronteiras secas, aéreas, rodoviárias”, afirma.
Impactos e avanço da doença no exterior O avanço internacional é evidente em locais como os Estados Unidos, que superaram 3,6 mil diagnósticos e cinco mortes em 2026. O crescimento está associado à queda na imunização e ao impacto de correntes contrárias aos imunizantes.
“Temos um extenso movimento antivacinação que abrange condados inteiros. Tudo isso resultado do movimento antivacinação e é cada vez mais difícil convencer os pais de que crianças precisam ser vacinadas”, pontua o infectologista Peter Hotez, da National School of Tropical Medicine, do Baylor College of Medicine.
No Brasil, a desinformação e a perda da percepção sobre a gravidade da moléstia dificultam o alcance das metas. A pediatra Flavia Bravo, também da SBIm, ressalta o perigo dessa retração.
“A redução da imunização, ainda que pareça uma taxa mínima, tem resultados sem precedentes, como o que estamos vendo. O país criou uma multidão de pessoas suscetíveis e que hoje são crianças e adultos vulneráveis ao vírus”, explica Bravo.
Complicações e protocolos de prevenção A enfermidade pode gerar quadros severos, tais como pneumonia, otite com risco de perda auditiva e encefalite. Além disso, o organismo pode sofrer com a chamada amnésia imunológica.
“O sarampo deixa o que nós chamamos de uma amnésia imunológica, ou seja, durante três a seis meses até, você vê os indivíduos que foram acometidos pelo sarampo mais vulneráveis a internações, a hospitalizações, a outras infecções”, detalha Kfouri.
O esquema do Ministério da Saúde orienta a primeira dose da tríplice viral aos 12 meses e a segunda aos 15 meses de idade. Para adolescentes e adultos até 29 anos, são exigidas duas doses documentadas, enquanto a faixa de 30 a 59 anos deve contar com pelo menos uma aplicação na rotina, reforçando a barreira sanitária contra o vírus.






