O medo da velhice e o apego excessivo à juventude costumam alimentar angústias comuns na sociedade contemporânea. Na obra A coragem de envelhecer: como a filosofia pode ajudar você a aceitar os efeitos da passagem do tempo, o filósofo e psicólogo Ichiro Kishimi desmistifica o declínio dos anos ao abrir sua reflexão com a máxima provocativa: “O melhor da vida é descer a ladeira”. Ao dialogar com seus pacientes em consultório, Kishimi nota que poucas pessoas realmente gostariam de reviver fases anteriores.
O autor relata que costuma questionar: “Você gostaria de voltar a ser como era aos 18 anos?”. A negativa é quase unânime. Diante disso, ele observa: “Eles não acham que basta ser jovem para ser feliz. Ou seja, a juventude não é necessariamente superior à velhice”, afirma. Inspirado pela teoria de Alfred Adler — psiquiatra austríaco contemporâneo de Sigmund Freud que destacou a força motivadora na busca pelo autoaperfeiçoamento —, o autor propõe uma profunda mudança na percepção sobre o tempo.
Distanciamento da lógica da produtividade
Para Kishimi, a maturidade exige se afastar do modelo de cobranças que rege a vida profissional. “O importante não é se comparar com o outro para saber se está acima ou abaixo dele, e sim dar um passo à frente para transformar a própria realidade e evoluir. Precisamos abandonar a lógica da produtividade e deixar de julgar os outros e nós mesmos pelo que produzimos. Esse é o ambiente do trabalho, um espaço de competição no qual somos avaliados permanentemente. Ao envelhecer, devemos nos afastar desse sistema de valores”, escreve.
Nessa perspectiva, o escritor lista três pilares fundamentais para alcançar a vida adulta plena: reconhecer o próprio valor sem depender do julgamento exterior; assumir a responsabilidade pelas próprias decisões; e afastar o egocentrismo. Sobre este último aspecto, ele pontua: “Assim como não vivemos para satisfazer as expectativas e demandas alheias, ninguém vive para satisfazer as nossas expectativas e demandas”.
O aprendizado diante da fragilidade física
Aos 50 anos de idade, o especialista enfrentou um infarto e, no ano seguinte, passou por uma cirurgia de ponte de safena. O impacto da enfermidade serviu como divisor de águas em suas convicções. “Adoecer gravemente é difícil. Muito pior do que as dores, as dificuldades e os desconfortos causados pela doença é não ter certeza de que estaremos vivos amanhã”, conta no livro.
Ele detalha ainda a transformação interior provocada pelo momento crítico: “Depois do medo da morte, passei a sentir um desespero: se não for capaz de fazer nada, talvez minha vida não tenha valor. Mas, certo dia, refleti: e se a pessoa internada fosse um familiar ou grande amigo? Eu ficaria grato por ela estar viva, então percebi que o mesmo se aplicava a mim. O fato de estar vivo era motivo de alegria para os outros, o que me fez recuperar a calma. A doença pode ser um ponto de virada”, ensina.
O cuidado com familiares e o respeito entre gerações
A convivência com o pai, de quem se tornou cuidador, gerou novos ensinamentos práticos reunidos na publicação. Um deles diz respeito ao papel dos filhos no amparo aos mais velhos: “Os filhos não devem impor suas crenças e ideias, nem se intrometer quando não forem chamados a opinar. Devem apenas tomar decisões práticas, que busquem o melhor para os pais sem criar regras indesejadas.”
Ao abordar quadros de demência senil, o escritor defende a atenção voltada ao momento presente: “Quando meu pai me disse que se esforçava, mas não conseguia lembrar das coisas que tinha esquecido, senti que era uma lição para mim. Mesmo que eles permaneçam presos ao passado, cabe a nós dar o primeiro passo e concentrar nossa atenção no aqui e agora.” Para enriquecer o vínculo familiar, ele sugere encarar cada dia como algo inédito: “Se conseguirmos nos relacionar com nossos pais como se fosse sempre o primeiro encontro, passaremos a ouvir melhor o que eles têm a dizer e os trataremos com mais respeito.”
Por fim, Kishimi reforça a necessidade de manter a humildade e admitir as próprias limitações, alertando contra a arrogância geracional: “Envelhecer não transforma automaticamente ninguém numa pessoa admirável ou digna de respeito. Muitas vezes os jovens deixam de ouvir os mais velhos porque esses falam como se soubessem tudo e fossem grandes sábios. Frases como ‘você ainda não entende isso’ ou ‘só quando envelhecer vai compreender’ criam distância”.






