Home / Polícia / Presa na Tailândia, brasileira virou tradutora antes de soltura

Presa na Tailândia, brasileira virou tradutora antes de soltura

De detenta a 'tradutora': como Mary Hellen aprendeu idiomas e ajudava brasileiros presos na Tailândia

De volta ao Brasil após cumprir quatro anos e meio de reclusão na Tailândia, a mineira Mary Hellen Coelho Silva transformou sua rotina no cárcere para sobreviver às rígidas regras do sistema penitenciário asiático. Sentenciada inicialmente a mais de nove anos por tráfico internacional de entorpecentes, a jovem de Pouso Alegre conseguiu diminuir sua pena substancialmente, além de atuar como elo de comunicação para outros detentos estrangeiros.

Mediação linguística e convivência no cárcere

Durante o período em que esteve detida em uma cela compartilhada com cerca de 150 presas de várias partes do mundo, Mary Hellen dominou o inglês e o tailandês. A fluência adquirida permitiu que ela auxiliasse novos detentos brasileiros desprovidos de conhecimento sobre a língua local e as normas internas da instituição.

“Ela aprendeu por uma questão de necessidade, até de cultura. Ela serviu de tradutora muitas vezes porque ela falava português e já entendia ali o inglês e o tailandês, e ela conseguia ajudar até outros brasileiros que chegavam sem falar o idioma”, contou a advogada Kaelly Cavoli Moreira, que representou a jovem ao longo do processo.

Atividades remuneradas para suprimentos básicos

Para conseguir recursos financeiros e adquirir artigos de primeira necessidade, Mary Hellen executou diferentes funções no presídio, atuando no setor de panificação e realizando massagens. Diante da dificuldade de manter uma rotina digna, ela chegou a solicitar transferência para um complexo de maior porte que oferecesse postos de trabalho interno.

A renda obtida era destinada à compra de produtos não distribuídos pelo presídio, como escova, pasta dental, calçados e alimentação alternativa às refeições apimentadas comumente servidas na unidade prisional.

“Isso não é fornecido pela unidade prisional, isso é compromisso da família na Tailândia. Só que ela não tinha família na Tailândia e a gente não conseguia fazer esse depósito, ainda que fosse um depósito muito simbólico, assim, a família não conseguia esse acesso”, explicou Kaelly.

Conduta exemplar e concessão de perdões reais

A legislação da Tailândia prevê punições severas para o comércio ilegal de entorpecentes, incluindo a pena de morte. No caso de Mary Hellen, a confissão inicial durante a audiência e a manutenção de uma conduta disciplinar de destaque foram fatores determinantes para a diminuição gradativa da sanção.

“Tem níveis de comportamentos dentro da unidade prisional que podem ser bons, médios e excelentes. A Mary Hellen, em todos os anos da prisão, ela manteve um comportamento excelente, o que fez com que ela entrasse nessa rodada de perdão real todas as vezes”, explicou a advogada.

A progressão ocorreu por meio de decretos de perdão real, expedidos periodicamente pela monarquia tailandesa a pessoas privadas de liberdade que cumprem requisitos rigorosos de avaliação prisional.

Relembre o caso e o retorno ao país

A prisão aconteceu em 14 de fevereiro de 2022, no Aeroporto Internacional de Bangkok. Na ocasião, autoridades locais apreenderam nove quilos de cocaína guardados em compartimentos falsos de três malas transportadas por Mary Hellen, então com 21 anos, e outro cidadão brasileiro. Um terceiro indivíduo acabou preso horas depois portando seis quilos adicionais da mesma substância. Em maio daquele ano, a Justiça local fixou a condenação em 9 anos e 6 meses de reclusão.

Durante o cumprimento da pena, Mary Hellen enfrentou a perda da mãe, vítima de câncer em abril de 2024, e também o falecimento de seu avô. As comunicações com os parentes em Minas Gerais ocorriam predominantemente por meio de correspondências escritas.

Após ser beneficiada pelo último indulto monárquico, a brasileira foi encaminhada temporariamente a um centro de detenção para imigrantes. A viagem de volta envolveu a mobilização de familiares em uma arrecadação para custear a passagem aérea, estimada em R$ 6 mil e sujeita a regras protocolares rígidas. Atualmente, a jovem reside no Brasil e já está inserida no mercado de trabalho.

Deixe um Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *