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Inflação real: por que o mercado parece mais caro que os índices

Por que o consumidor sente o mercado ainda mais caro do que mostram os índices?

Existe um descompasso entre a medição oficial da inflação — que já fecha acima da meta estipulada — e a experiência diária da população brasileira no caixa do supermercado. Se nos relatórios do IPCA a alta dos preços já é motivo de alerta para a política monetária, para o cidadão comum a sensação é de um aperto ainda mais acentuado. Essa discrepância não decorre de falhas metodológicas do IBGE, mas sim da própria natureza dos indicadores agregados, que calculam uma média ponderada de centenas de itens — variando de passagens aéreas e combustíveis a bens eletroeletrônicos —, camuflando o peso desproporcional sobre os itens essenciais de subsistência.

O peso da comida no orçamento

Para as famílias de média e baixa renda, a composição do orçamento mensal é amplamente dominada por alimentação, moradia, saúde e transporte. Nesses grupos, a relevância dos gêneros alimentícios e dos serviços básicos é incomparavelmente maior do que no cálculo médio da inflação oficial. Quando alimentos essenciais registram altas expressivas ou permanecem em patamares elevados após choques acumulados, o impacto sobre o bolso do trabalhador é imediato, anulando qualquer alívio pontual que venha pela oscilação de preço em bens discricionários ou serviços consumidos por faixas de maior renda.

O impacto oculto da reduflação

Somado a esse descompasso, o fenômeno da ‘reduflação’ — quando marcas reduzem a quantidade ou embalagem dos produtos sem diminuir o preço final — altera a percepção do valor real da moeda. O consumidor desembolsa a mesma quantia na prateleira, mas leva para casa um volume inferior de mercadorias, exigindo compras mais frequentes e elevando o gasto efetivo mensal. Assim, a inflação percebida no dia a dia reflete o custo real da cesta, que avança em ritmo muito superior à média geral divulgada nos relatórios econômicos.

Mudança no perfil do endividamento

Essa pressão contínua sobre o poder de compra desencadeou uma mudança estrutural e profunda no perfil do endividamento das famílias. Historicamente, o recurso a financiamentos ou compras parceladas no Brasil estava associado à aquisição de bens duráveis, como eletrodomésticos, automóveis ou reformas residenciais, ativos que incorporavam patrimônio ou melhoravam a infraestrutura familiar. Hoje, contudo, estudos de mercado e dados de órgãos de proteção ao consumidor revelam que as opções de endividamento passaram a funcionar como um complemento de renda para o custeio de despesas operacionais do cotidiano.

O uso do parcelamento, do cartão de crédito e do Pix financiado para a compra de comida no fim do mês, medicamentos em farmácias e combustível em postos de conveniência tornou-se uma prática recorrente para milhões de brasileiros. O cartão deixou de ser um instrumento de planejamento para bens de maior valor e transformou-se no único mecanismo viável para fechar o orçamento alimentar. Com um comprometimento médio de renda cobrando taxas elevadas devido aos juros do rotativo e das modalidades de empréstimo pessoal, as famílias acabam presas em um ciclo vicioso de refinanciamento de despesas correntes.

O resultado desse arranjo é o esgotamento da capacidade de consumo futuro e a compressão do investimento privado na economia real. À medida que a renda mensal fica capturada pelo pagamento de juros e rolagem de dívidas contraídas para consumo de sobrevivência, o apetite por bens duráveis e investimentos de longo prazo desaparece. Sem reformas que desatem os nós da produtividade e reduzam o custo das taxas financeiras no país, o abismo entre os números oficiais e a rotina de aperto das famílias continuará sendo o principal desafio da economia brasileira.

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