Uma aluna bolsista de 13 anos, estudante de uma instituição particular em Belo Horizonte, foi alvo de graves ataques virtuais logo após o encerramento das eleições presidenciais. A jovem negra havia publicado uma manifestação favorável à vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em seu perfil restrito no Instagram, o que desencadeou uma onda de mensagens agressivas contendo injúrias raciais, intolerância religiosa, preconceito socioeconômico e ameaças sexuais direcionadas a ela e a seus familiares.
Repercussão e denúncia policial
Os ataques partiram da conta de um colega da própria aluna e de perfis de outros dois adolescentes externos. Antes que o conteúdo fosse apagado, a mãe da menina conseguiu registrar capturas de tela das mensagens de texto e áudio. Entre as falas registradas pelos agressores, constavam declarações como “Filha de Exu, elite do Candomblé, o Zé Pilintra é seu pai” e “Sua pobre desgraçada, minha casa vale R$ 10 milhões, vale mais que sua alma inteira”. Diante da gravidade da situação, a mãe formalizou um boletim de ocorrência na Polícia Civil de Minas Gerais, tipificando o caso como injúria eletrônica com motivação racial.
“Eu fiquei indignada, não estava a acreditar que estava vendo tanta coisa vinda de uma criança – porque, para mim, são crianças ainda”, declarou a mãe da vítima.
“Fiquei muito impactada com as falas deles, com as agressões verbais contra mulheres, porque teve outra colega de sala com quem eles também fizeram isso”, completou.
A família é representada pelo advogado Victor Alves, que enfatiza a relevância de acionar os órgãos competentes.
“É importante não apenas do ponto de vista jurídico, mas também pedagógico, institucional, social e de proteção integral da criança e do adolescente”, pontuou o defensor.
“Precisamos romper com a naturalização do racismo, proteger a dignidade e a saúde emocional da menina, produzir responsabilização (mesmo quando os envolvidos são menores), impedir a repetição da violência e produzir uma mudança institucional”, acrescentou.
Posicionamento da escola e contexto nacional
Após uma reunião realizada entre a família, o advogado e a direção do colégio, a instituição garantiu suporte jurídico e psicológico à estudante, reiterando em nota oficial que repudia qualquer tipo de discriminação e que conduz investigações internas sobre o ocorrido. O episódio em Minas Gerais integra um cenário mais amplo de hostilidades políticas em ambientes de ensino, com registros semelhantes mapeados em estados como Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e no Distrito Federal.
Assédio político contra docentes
A onda de hostilidades pós-eleitorais também atingiu o corpo docente em instituições privadas mineiras. O Sindicato dos Professores do Estado de Minas Gerais (Sinpro Minas) reportou dezenas de denúncias de intimidação e coerção direcionadas a professores.
“São denúncias de intimidação por parte de colegas e de direção da escola. Dizem que quem votou no 13 deve perder o emprego, que não devem nem ser cumprimentados — isso por colegas, na sala dos professores”, relatou a presidente da entidade, Valéria Morato.
“Teve caso de direção dizendo que, caso a escola perca alunos, os primeiros a serem demitidos, com certeza, serão os que votaram no 13. E temos também relatos de estudantes se organizando para filmar as aulas para ‘pegarem alguma brecha’ e depois divulgar na internet”, complementou.
Análise especializada e combate à violência
Especialistas em educação e direitos humanos alertam que episódios dessa natureza configuram violência política e exigem respostas firmes, distanciando-se do tratamento dado a casos tradicionais de bullying. A professora Luciene Regina Tognetta, da Unesp, reforça que a intervenção institucional deve ser imediata e pedagógica, priorizando a responsabilização dos agressores e a reparação dos danos à vítima em vez da simples expulsão.
“A expulsão não vai resolver, vai levar esses alunos para uma outra escola em que ele vai fazer a mesma coisa”, argumenta a especialista.
“A vítima precisa poder ser ouvida e o agressor, ter de reparar o que fez. Se não, eu nunca vou formar para a vida em sociedade.”






