O presidente do Paraguai, Santiago Peña, oficializou sua renúncia ao cargo nesta quinta-feira (5). A decisão ocorre no auge de uma grave crise política e financeira, desencadeada pelo fechamento do banco digital Ueno, instituição da qual o mandatário foi acionista. O cenário tornou-se insustentável após o Congresso iniciar uma sessão extraordinária para debater o impeachment, contando com o apoio unânime de diversas bancadas.
Pressão política e isolamento
A saída de Peña foi acelerada pela perda de sustentação política. O Partido Colorado, legenda que o levou ao poder, retirou o apoio ao governo, incluindo o presidente da sigla, Horacio Cartes, e o presidente do Congresso, Basilio Nuñez. O vice-presidente Pedro Alliana, que assume o posto, também figura como alvo de pedidos de impeachment, mantendo a instabilidade no Executivo paraguaio.
O estopim: a crise do banco Ueno
O banco digital Ueno, cujos controladores possuem vínculos com o governo, foi liquidado pelo Banco Central após a constatação de uma severa insuficiência de recursos. A instituição detinha cerca de 850 milhões de dólares em depósitos, incluindo fundos previdenciários. A oposição acusa o governo de conflito de interesses e de encobrir irregularidades na gestão da entidade. Durante a sessão que pedia o impeachment, a deputada de oposição Rocío Vallejo criticou duramente a gestão de Peña: “Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente… o senhor é a origem desse monstro que criou”.
Pronunciamento e justificativas
Em um vídeo divulgado à nação, o agora ex-presidente justificou sua saída alegando a necessidade de preservar a ordem institucional. Segundo ele, a decisão foi tomada “pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições democráticas”. Em outro trecho, ele declarou: “Estou convencido de que nenhum cargo pode estar acima do bem-estar do Paraguai. Também quero pedir desculpas ao povo. Se em algum momento falhei, nunca foi minha intenção decepcionar a confiança que depositaram em mim”.
Desdobramentos judiciais
Enquanto o sistema financeiro enfrenta o temor de contágio — com relatos de instabilidades em outros aplicativos bancários —, a Justiça paraguaia avança nas investigações. Mandados de prisão foram expedidos contra executivos do Ueno, e 27 pessoas foram formalmente acusadas pelo Ministério Público. Diante do caos, Peña ainda tentou apelar aos políticos antes de renunciar: “Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”.
O mandato de Santiago Peña, economista conservador que assumiu a presidência em 2023, estava previsto para terminar apenas em 2028. A sucessão agora coloca o país em um momento de incerteza política, enquanto as autoridades tentam conter o impacto do bloqueio de bens dos envolvidos e a frustração dos milhares de correntistas afetados.






