O cenário político no Paraguai vive um momento de alta tensão após o fechamento do banco digital Ueno. Um grupo formado por 35 deputados oposicionistas protocolou, nesta quarta-feira (4), um pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña, alegando que o chefe do Executivo teria envolvimento em irregularidades que levaram à liquidação da instituição financeira e ao bloqueio de recursos de milhares de correntistas.
Contexto da crise financeira
O Ueno, que integra o Grupo Vázquez, entrou em processo de liquidação após o Banco Central do Paraguai detectar uma grave insuficiência de caixa, agravada pela prática de concessão de empréstimos a empresas do próprio conglomerado. A magnitude do problema é significativa: o banco contava com cerca de 3 milhões de clientes e gerenciava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos, incluindo verbas públicas do Instituto de Previdência Social. O vínculo de Peña com o grupo é o ponto central da discórdia, já que o presidente manteve participação acionária na holding até março de 2025.
Acusações e o posicionamento da oposição
Os parlamentares que lideram o pedido de destituição sustentam que a trajetória profissional de Peña cria um conflito de interesses evidente. O bloco oposicionista levanta suspeitas de manipulação normativa, desvio de fundos previdenciários e uma possível atuação de órgãos reguladores para ocultar as irregularidades bancárias.
Durante a sessão legislativa, a deputada Rocío Vallejo direcionou críticas severas ao mandatário: “Nunca antes alguém prejudicou, em um único dia, 3 milhões de pessoas na República do Paraguai, e o senhor conseguiu isso, senhor presidente… o senhor é a origem desse monstro que criou”.
Desdobramentos judiciais e administrativos
O escândalo já gerou impactos práticos na estrutura do sistema financeiro nacional. Carlos Carvallo foi afastado da presidência do órgão supervisor, e a Justiça paraguaia ordenou a prisão de oito dirigentes do banco, incluindo o CEO Miguel Vázquez. No total, 27 indivíduos ligados à instituição foram denunciados, com o bloqueio imediato de seus ativos determinado pelo Poder Judiciário.
Enquanto isso, a Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) tenta acalmar o mercado diante do temor de contágio, garantindo que o sistema financeiro segue “operando normalmente”, apesar da sobrecarga nos aplicativos de outras instituições financeiras.
A resposta do Palácio do Governo
Santiago Peña ainda não comentou formalmente o pedido de impeachment, mas utilizou a rede social X para defender que os culpados pelas falhas no Ueno sejam punidos judicialmente. O governo tenta conter a crise com a promulgação de uma lei que visa agilizar o reembolso dos depósitos dos correntistas afetados.
Sobre o clima de instabilidade, o presidente declarou: “Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”.
A viabilidade do processo de destituição, contudo, permanece incerta. Para que o pedido avance na Câmara dos Deputados, é necessário o apoio de dois terços dos parlamentares, marca que a oposição ainda não possui, dada a atual base governista consolidada desde a posse de Peña em 2023.






