O compositor, pianista, tecladista, arranjador e produtor musical carioca Maurício Magalhães de Carvalho, conhecido artisticamente como Mu Carvalho, detalha sua trajetória artística na autobiografia intitulada “Memórias sintetizadas”. A obra compila as alegrias e tensões de uma carreira iniciada em 1973, quando ingressou no Grupo Semente aos 16 anos, impulsionado por uma família de pianistas.
A ascensão com A Cor do Som e os desafios da indústria
Em 1975, o músico integrou as bandas de Jorge Ben Jor e Moraes Moreira (1947 – 2020), alcançando grande projeção dois anos mais tarde com a formação do conjunto A Cor do Som. O grupo abriu caminhos pioneiros na música brasileira com sua sonoridade instrumental e pop com forte brasilidade. No entanto, com a hegemonia do rock a partir de 1982, a banda enfrentou dificuldades e reconheceu equívocos na tentativa de se adaptar ao mercado, como no álbum “As quatro fases do amor” (1983).
A pressão das gravadoras também pesou na trajetória do grupo. Em 1986, o diretor artístico da RCA na época, Miguel Plopschi, sugeriu que a banda gravasse canções da dupla Michael Sullivan & Paulo Massadas. Diante da recusa dos músicos, o disco “Gosto do prazer” (1986) recebeu pouco apoio da companhia, culminando na dissolução temporária da formação em 1987.
Bastidores da televisão e grandes sucessos autorais
Para superar a instabilidade financeira comum aos músicos de apoio, conhecidos como sidemen, Mu encontrou estabilidade na TV Globo. Convidado em 1994 pelo irmão Sérgio Carvalho (1949 – 2019), o artista permaneceu por 28 anos na emissora, criando temas incidentais para novelas em escala industrial.
Entre as histórias de bastidores narradas no livro, destaca-se a criação da trilha para a novela “Chocolate com pimenta”, exibida a partir de 2003. O diretor Jorge Fernando (1955 – 2029) buscava uma música de abertura para a trama ambientada na década de 1920. Com autorização do diretor musical Mariozinho Rocha, Mu compôs o charleston homônimo, com letra de Aldir Blanc (1946 – 2020), que se tornou um de seus maiores êxitos.
O outro grande marco de sua autoria é “Sapato velho”, composta na juventude em parceria com Claudio Nucci e com letra de Paulinho Tapajós (1945 – 2013). A faixa alcançou enorme popularidade nacional ao ser gravada pelo grupo Roupa Nova.
Legado e discografia solo
Organizado e editado por Paulo Jeibali a partir de relatos colhidos ao longo de uma década, o livro publicado pela editora Memorabilia conta com textos de apresentação assinados por Dadi Carvalho e Gilberto Gil.
Ao longo de 258 páginas, a publicação revisa toda a discografia do artista, iniciada no formato solo em 1985 com o álbum “Meu continente encontrado”. A jornada autoral ganha um novo capítulo com o lançamento recente do trabalho intitulado “O mundo é o meu jardim”, consolidando a trajetória de um músico que transformou seu universo criativo em um vasto legado sem fronteiras.






