A trajetória da advogada Miriane Ferreira nas redes sociais esconde um passado marcado por graves violações, refletindo a dura realidade enfrentada por milhares de meninas em todo o território nacional.
Origens difíceis e a fuga precoce Nascida em Arapongas, no Paraná, a profissional cresceu em meio à escassez financeira após a ausência paterna e a viuvez de sua mãe, que sofreu um aneurisma. Na sequência, o novo parceiro da mãe passou a cometer abusos contra a jovem. Aos 13 anos, ela conheceu um homem duas vezes mais velho e, vendo na união uma forma de escapar do ambiente hostil, casou-se com ele aos 15 anos.
“Tudo o que eu queria naquele momento era sair dali. Eu queria que alguém me salvasse”, diz. “Sei também que aquilo não era uma história de amor entre iguais. Era um homem adulto e uma menina de 13 anos procurando proteção.”
Após o término da união precoce, Miriane enfrentou novos relacionamentos abusivos, gravidez e dificuldades financeiras, mas conseguiu concluir os estudos e ingressar na faculdade de Direito com o apoio fundamental de sua irmã.
“Foi ela quem pagou minha faculdade, mas o apoio dela foi muito além do financeiro. Ele me cobrava, insistia para que eu estudasse, pegava no meu pé mesmo, porque sempre enxergou em mim uma capacidade que, muitas vezes, nem eu mesma consigo enxergar até hoje”, conta.
O sucesso digital e o apoio às mulheres Durante os estágios acadêmicos, a advogada percebeu que muitas clientes desconheciam suas próprias prerrogativas legais em relacionamentos problemáticos, motivando sua atuação na defesa do público feminino e a criação de conteúdos virais na internet.
“As redes sociais acabaram ampliando aquilo que eu já havia percebido nos atendimentos. Muitas mulheres não apenas desconhecem seus direitos, mas também não reconhecem o valor da própria contribuição dentro de uma relação”, afirma.
Panorama do casamento infantil no país O Brasil lidera os registros absolutos de casamentos infantis na América Latina, ocupando a sexta posição globalmente, segundo dados do Fundo de População das Nações Unidas. Especialistas apontam que a vulnerabilidade socioeconômica e a falta de proteção efetiva alimentam esse ciclo prejudicial.
“Morar com um parceiro mais velho pode parecer proteção ou estabilidade. Mas uma escolha sem alternativas reais não é plenamente livre. A diferença de idade aumenta a desigualdade de poder, o abandono escolar, a dependência econômica e o risco de violência”, diz Florbela Fernandes, representante do UNFPA no Brasil.
Para combater o problema, ativistas defendem o endurecimento das leis e o preparo adequado da rede de proteção social.
“Precisamos preparar escolas, serviços de saúde e assistência social, Conselhos Tutelares e toda a rede de proteção para identificar os casos e agir de forma coordenada, sem julgar ou revitimizar as meninas”, afirma Florbela Fernandes.
Impactos globais e perspectivas futuras Organizações internacionais alertam que as uniões precoces geram prejuízos econômicos multibilionários e comprometem o desenvolvimento social, além de violarem direitos fundamentais da infância.
“O casamento infantil tira as meninas da escola e, posteriormente, do mercado de trabalho. Tira a liberdade delas, impede que tenham autonomia sobre o próprio corpo e a própria vida e pode comprometer o futuro que poderiam construir”, afirma Bhuwan Ribhu, fundador da organização Just Rights for Children.
“É também uma crise de saúde. O casamento infantil expõe as meninas a um risco maior de estupro, violência sexual e outras formas de abuso dentro do casamento.”
A atuação de profissionais como Miriane demonstra o potencial transformador da educação e da informação na emancipação feminina e no enfrentamento às vulnerabilidades sociais.






