Um projeto social desenvolvido no bairro Redenção, localizado na Zona Centro-Oeste de Manaus, transformou o descarte irregular de resíduos em uma ferramenta de capacitação profissional, geração de renda e preservação ambiental para dezenas de moradoras da região.
Origem da iniciativa comunitária
A criadora da ação, Maria Cristina, decidiu agir ao notar a poluição em um igarapé local. O incentivo inicial veio de sua filha adolescente, que a motivou a ensinar técnicas artesanais para outras pessoas da comunidade.
“Eu me deparei com esse igarapé, que as pontes eram muito pequenas e era muita garrafa descartada. Era um rio de garrafa descartada. Só que eu já tinha uma filha que era adolescente, ela já estava trabalhando. Então ela começou a falar: ‘Mãe, a senhora sabe crochê, a senhora sabe fazer sandália, chame essas mulheres, saia de casa’”, relembrou Maria Cristina.
Acolhimento e saúde mental
Com o passar do tempo, o espaço coletivo passou a funcionar também como um ponto de apoio emocional e convivência para mulheres que enfrentam momentos delicados, incluindo quadros de depressão, viuvez ou separações recentes.
“As mulheres que nos procuram, algumas delas chegam com depressão, com uma doença que elas estão ali com a cabeça bagunçada, estão querendo ajuda. Algumas mulheres recém-separadas, algumas viúvas e algumas vêm só para aprender o ofício do crochê e do artesanato”, explicou Maria Cristina.
Impacto na renda familiar
Voluntária na instituição desde 2016, Célia Bentes destaca a evolução das participantes que frequentam as oficinas de reciclagem e manuseio de fios e agulhas.
“Eu já vi muitas das meninas daqui que chegaram sem saber pegar na agulha do crochê, sem fazer nada de garrafa PET, nem de papelão, revista, essas coisas. Hoje em dia já até conseguem vender esses produtos, fazer e vender e já ajudar na sua renda familiar, né?”, contou Célia.
Consciência ambiental e coleta seletiva
Além da autonomia financeira, o grupo implantou um ponto de recebimento de materiais recicláveis, como papelão, plástico e garrafas PET, alterando de forma definitiva os hábitos dos moradores locais em relação ao lixo doméstico.
“Eles não jogam o lixo no igarapé. Quando você vê o lixo, é que desce de lá. Garrafa PET não vai pro igarapé, vem pro PET, eles trazem no saquinho deles, depositam aí. O lixo doméstico vai para outra lixeira lá na frente, que nós da comunidade construímos. Então esse hábito deles mudou muito de jogar o lixo pela janela”, destacou Maria Cristina.
Apoio institucional e futuro
Atualmente, as oficinas contam com o suporte financeiro do Programa Icamiabas, uma ação desenvolvida pela Manauara Associação Comunitária (MAC) em parceria com a Fundação Rede Amazônica, voltada para fortalecer lideranças femininas em áreas vulneráveis.
“Que tenha mais em outros lugares, em outros bairros, em outras comunidades, que isso se faça mais, que é uma coisa muito boa, que ajuda, ajuda o meio ambiente, ajuda as famílias, e é assim, é muito bom. Seria bom que isso acontecesse em outros bairros, em outras comunidades”, afirmou Maria Cristina.
Aos 64 anos, a idealizadora enxerga a trajetória construída como um legado duradouro voltado para o fortalecimento dos laços comunitários e a valorização das próximas gerações na capital amazonense.
“Hoje eu tenho 64 anos, então é um legado que eu vou deixar para minha filha e para minha comunidade. Então é isso que me move”, concluiu.






