A deputada argentina Marcela Pagano cobrou explicações formais das autoridades de seu país sobre a possível colaboração do governo de Javier Milei na saída do senador brasileiro Flávio Bolsonaro (PL) rumo aos Estados Unidos. A parlamentar apontou indícios de irregularidades no controle de imigração, além do uso de escolta policial e transporte em veículos diplomáticos durante a passagem da família pela Argentina.
Questionamentos na Justiça
Diante das suspeitas levantadas, o caso passou a ser investigado pela Justiça argentina, que determinou a preservação de imagens das câmeras de segurança na fronteira e no aeroporto de Puerto Iguazú, cidade localizada na divisa com Foz do Iguaçu (PR). Questionado sobre o envolvimento de órgãos oficiais na operação, o secretário de Comunicação da Presidência da Argentina, Fabian Fernandez, limitou-se a responder que o governo não tinha nada a declarar.
Durante entrevista, a deputada detalhou os pontos que motivaram sua cobrança às autoridades locais: “A irregularidade na passagem pelo controle de imigração argentino, a escolta de policiais e, depois, o transporte em carros diplomáticos do Ministério das Relações Exteriores da Argentina. São esses os elementos que eu apresento pra que a Justiça cobre explicações das autoridades argentinas sobre como puderam autorizar essa operação”.
Registros de imigração e vans na fronteira
Investigações baseadas em documentos oficiais de cooperação internacional mostram que duas vans da empresa Iguaçu Dallas Travel Turismo Ltda. cruzaram a fronteira em Foz do Iguaçu na noite de uma terça-feira. Em um dos veículos, vindo de Cascavel (PR), estavam a esposa de Flávio, Fernanda, e as duas filhas do casal. O sistema de imigração registrou três entradas de Flávio Bolsonaro na mesma van em um intervalo de apenas 34 minutos, utilizando diferentes documentos: passaporte italiano, carteira de identidade e passaporte brasileiro. Posteriormente, os registros feitos com documentos do Brasil foram cancelados, mantendo válido apenas o passaporte italiano.
Na outra van, que passou pela aduana sete minutos antes, viajavam o motorista Neri Luiz Dala Corte, o advogado Roberto Jorge Alexandre — que já integrou a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro — e o israelense Menachem Booky Halevy, identificado como ex-oficial do serviço de inteligência de Israel. O jornalista argentino Nicolás Munafó, do canal C5N, testemunhou a chegada da comitiva ao aeroporto de Puerto Iguazú e relatou a presença de uma caminhonete da Polícia de Segurança Aeroportuária abrindo caminho para veículos brasileiros e argentinos, incluindo um com placa diplomática.
Linhas de investigação sobre a chegada
Apesar de os papéis migratórios apontarem uma entrada terrestre, as apurações indicam que o senador pode ter chegado de avião. A suspeita é de que ele tenha decolado de Brasília em um jato ligado ao advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio, com pouso em San Fernando, na região de Buenos Aires. Desse ponto, teria embarcado em outro voo privado até Puerto Iguazú para aguardar a esposa e as filhas. O advogado Willer Tomaz negou, por meio de sua assessoria, que aeronaves de sua propriedade ou de familiares tenham sido utilizadas no deslocamento.
Destino final nos Estados Unidos
Após o reencontro em território argentino, o grupo seguiu viagem em um jato de luxo Gulfstream G400 operado pela empresa Baires Fly. Segundo o empresário Luis Grande, dono da companhia, o voo custou cerca de 150 mil dólares e incluiu uma escala técnica para reabastecimento em Guayaquil, no Equador, antes de pousar no Aeroporto Executivo de Opa-Locka, na Flórida. A viagem ocorreu logo após o Supremo Tribunal Federal (STF) ordenar que o parlamentar entregasse seus passaportes à Polícia Federal. A defesa do senador, conduzida pelo advogado Frederick Wassef, declarou que nenhuma informação sobre o deslocamento é oficial e negou que a saída do país tenha sido uma fuga.






