Na criação de peixes, a regra geral é que os animais que mantêm a coloração original da espécie, conhecida como linhagem selvagem, sejam mais robustos e cresçam mais do que variantes com mutações genéticas. No entanto, um experimento conduzido no Brasil com trutas-arco-íris revelou uma quebra surpreendente nesse padrão biológico ao analisar o desenvolvimento desses animais em cativeiro.
A descoberta da truta amarela Os pesquisadores constataram que a truta amarela, originada do cruzamento com a linhagem albina, ultrapassa no longo prazo o peso da linhagem tradicional, que exibe coloração parda com pintas pretas. Embora a variedade comum se desenvolva mais rapidamente nos estágios iniciais da vida, a amarela ganha forte aceleração na reta final e atinge cerca de 300 gramas no ponto comercial.
Com esse resultado, o animal supera com folga os 237 gramas da truta selvagem e os 145 gramas da variante totalmente branca. O achado científico foi apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e divulgado na revista científica Aquaculture Reports.
“O desempenho do fenótipo amarelo foi uma surpresa, porque o selvagem é normalmente o que cresce mais. Os animais albinos geralmente têm uma menor eficiência na conversão de alimento em músculo e em outros parâmetros. A selvagem até cresceu mais no início do experimento, mas o crescimento desacelerou depois de 120 dias”, conta Vinicius Vasconcelos Silva, 1º autor do estudo, realizado durante seu doutorado no Instituto de Pesca e na Fzea-USPP.
Metodologia do experimento Os testes ocorreram em tanques rigorosamente controlados no Núcleo Regional de Pesquisa em Salmonicultura Dr. Ascânio de Faria, mantendo parâmetros idênticos de temperatura, qualidade hídrica e nutrição. No total, os cientistas avaliaram cerca de 8.200 alevinos nascidos em laboratório, selecionando lotes de 90 indivíduos de cada coloração para as medições periódicas.
“A diferença na coloração tem potencial para aquicultura, podendo gerar diferentes produtos a partir da mesma espécie, mas principalmente para a pesca esportiva. Existe uma demanda por peixes diferentes em estabelecimentos de pesque e pague”, afirma Vander Bruno dos Santos, pesquisador do Instituto de Pesca e coordenador do projeto investigativo.
O papel dos genes de cor Investigações anteriores já apontavam que mutações ligadas à ausência de melanina podem interferir negativamente no apetite, na imunidade e na resposta ao estresse dos animais, muitas vezes reduzindo a eficiência metabólica de variantes brancas e azuis devido a alterações na hipófise. Superar barreiras produtivas e genéticas desse tipo é fundamental para dinamizar a aquicultura brasileira, que hoje produz aproximadamente 1,6 mil toneladas anuais da espécie e busca alternativas para agregar valor comercial e conquistar novos mercados consumidores.






