Manifestações contra o encarecimento do custo de vida e a precariedade dos serviços públicos degeneraram em confrontos com as forças de segurança neste sábado (31) em várias regiões da França.
Confrontos em Paris e Lyon
Em Paris, a polícia de choque avançou para dispersar pequenos grupos de manifestantes. Situações semelhantes ocorreram com o uso de gás lacrimogêneo em Lyon, terceira maior cidade do país, e em Toulouse, no sudoeste francês. Os atos aconteceram sob forte esquema de segurança, duas semanas após uma onda de distúrbios e saques que destruiu lojas, prédios públicos e empresas.
Participação popular e mobilização
Os protestos reuniram estudantes, sindicatos e integrantes do movimento dos Coletes Amarelos. Embora tenham começado de forma pacífica durante a tarde, as manifestações terminaram em choques com a polícia na capital e em outras cidades. Os grupos protestam contra a alta dos preços dos combustíveis, a inflação e as dificuldades enfrentadas pelas famílias para pagar as contas. Em Marselha, também houve tensão no fim de atos que não tinham autorização oficial.
Os atos na França inspiraram mobilizações lideradas por jovens da chamada Geração Z em outros países europeus, com registros também na Alemanha e na Itália. Apesar da ampla adesão, a participação foi menor do que nos dois sábados anteriores. O Ministério do Interior registrou 320 mil pessoas em todo o país, sendo 70 mil em Paris. Na semana anterior, foram 410 mil manifestantes, e em 17 de outubro o total chegou a 550 mil.
O ministério apontou que grupos radicais tentaram se separar das marchas para provocar danos e saques em cidades como Bordeaux, Toulouse, Lyon e Marselha, mas foram contidos. As autoridades também apreenderam objetos que poderiam ser usados como armas em rodovias e estações ferroviárias.
Origem do movimento estudantil
As manifestações ganharam força no final de setembro, quando o governo minoritário do presidente Emmanuel Macron iniciou as tratativas sobre o orçamento de 2027. O movimento começou com estudantes que reclamavam da piora das condições nas escolas, superlotação das salas de aula e do sistema de admissão nas universidades. Posteriormente, uniram-se sindicatos e os Coletes Amarelos, movimento ativo desde 2018. As promessas governamentais de reformar a educação e reduzir gastos com combustíveis não bastaram para conter a insatisfação.
Durante o ato em Paris, o estudante Aaron Berthier de Grandry, de 15 anos, relatou que participava de seu terceiro fim de semana consecutivo de protestos. “Quando eu era pequeno, me diziam que os jovens eram o futuro”, afirmou. “Bem, se nós, como o futuro da França, não temos recursos, isso significa que a França acabará entrando em colapso.”
O manifestante Jérôme Rodriguez também criticou a situação econômica e a gestão atual. “A economia francesa está indo mal, aconteça o que acontecer, porque hoje somos governados por um grupo de incompetentes que fazem malabarismos com bilhões, enquanto as famílias lutam para sobreviver com alguns centavos”, disse.
Segurança reforçada e impacto econômico
Para evitar a repetição da violência de 17 de outubro, as autoridades impuseram restrições. O ministro do Interior, Laurent Nunez, alertou sobre o uso de máscaras de Halloween para ocultar a identidade de vândalos, lembrando que a legislação permite proibir adereços que ameacem a ordem pública. A Justiça também manteve a proibição de uma marcha entre as praças da Nação e da Bastilha, autorizando apenas um trajeto na zona leste de Paris, longe do centro comercial. A Embaixada dos Estados Unidos recomendou que viajantes evitassem grandes aglomerações.
A crise ocorre em um cenário delicado. Na sexta-feira (30), a agência de classificação de risco Fitch rebaixou de estável para negativa a perspectiva da nota de crédito da França, refletindo preocupação com as contas públicas. Com a dívida se aproximando de 120% do Produto Interno Bruto (PIB) e os custos de financiamento em alta, o governo tem margem de manobra limitada para atender aos manifestantes.
Politicamente, o líder da esquerda radical Jean-Luc Mélenchon participou da marcha em Paris, enquanto a extrema direita liderada por Marine Le Pen lidera as pesquisas para a eleição presidencial de abril. Além disso, dados econômicos mostraram que o país entrou em contração no terceiro trimestre. A Câmara de Comércio estima prejuízos superiores a 1 bilhão de euros ao varejo, valor que pode dobrar considerando danos não cobertos por seguros. Em Paris, lojas de marcas de luxo como Hermès, Louis Vuitton e Burberry permanecem protegidas por tábuas e grades em meio à chegada das festas de fim de ano.






