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Santa Catarina lidera em praias alargadas e enfrenta desafios

Areia sob fiscalização: SC lidera em praias alargadas, mas tem desafio de aliar investimentos milionários e preservação

Santa Catarina lidera o ranking nacional em números de alargamentos de praias, lidando com a complexa tarefa de recuperar faixas de areia erodidas pela força do mar. O litoral catarinense soma pelo menos nove praias com intervenções concluídas, incluindo três em Florianópolis, além de outros dois projetos previstos para os próximos anos. Ao todo, os aportes já realizados somam pelo menos R$ 178 milhões, impondo o desafio duplo de viabilizar recursos milionários e assegurar a segurança ambiental da população.

Histórico das intervenções e Balneário Piçarras A complexidade do processo é visível no histórico local. Balneário Piçarras, pioneira no estado com uma obra de engordamento em 1998, precisou passar por quatro intervenções ao longo de 25 anos. A mais recente, finalizada em abril de 2026, custou R$ 24,2 milhões.

A prefeitura local justificou que a repetição das obras ocorre devido às características dos sedimentos antigos, à dinâmica costeira e à evolução tecnológica dos projetos.

“É importante esclarecer que essa técnica não elimina definitivamente a erosão, pois a praia continua sujeita à ação das ondas, das correntes marítimas e às mudanças nas condições costeiras. No caso de Balneário Piçarras, que apresenta um processo de erosão costeira, o alargamento funciona como uma reserva adicional de sedimentos”, destacou a prefeitura, em nota.

Impactos e projeção nacional Em Balneário Camboriú, o alargamento finalizado em 2021 deu projeção nacional a esse tipo de megaobra, ampliando a faixa de areia da Praia Central de 25 para 70 metros em 5,8 quilômetros de extensão. Contudo, eventos extremos como a ressaca que atingiu a Praia dos Ingleses, em Florianópolis, em 2025, demonstram a vulnerabilidade contínua de algumas orlas.

Para o biólogo Paulo Horta, professor da UFSC, a longevidade dessas estruturas é curta diante das mudanças climáticas.

“Tradicionalmente, os engordamentos têm trazido muito mais prejuízos do que benefícios, inclusive produzindo uma falsa sensação de segurança econômica e civil, porque, diante do cenário atual de elevação do nível do mar e agravamento da crise climática, as praias engordadas representam um investimento que tem longevidade curta”, comenta.

Fiscalização e controle de recursos públicos Para evitar prejuízos e orientar os municípios, o TCE-SC publicou uma nota técnica em janeiro de 2026. Auditorias apontam a necessidade de contratações conjuntas e maior rigor na previsão de manutenção. Matheus Lapolli Brighenti, auditor fiscal de controle, reforça a importância de planejamento integrado.

“Um ponto importante, já levantado em Balneário Camboriú, foi a necessidade de os municípios contratarem obras de forma conjunta para baratear a mobilização e a desmobilização”, explicou.

Desafios ambientais e ações judiciais O ecossistema costeiro também sofre pressões com a dragagem e a urbanização desordenada, conforme aponta o oceanógrafo Paulo Pagliosa.

“Soluções para esses problemas devem considerar o funcionamento do ecossistema, em particular, a escala dos fenômenos que atuam sobre a praia e a inter-relação dos diferentes componentes físicos, biológicos e sociais. Esse tipo de situação exige uma gestão integrada, planejando uma trajetória de adaptação ao longo do tempo e levando em conta as condições socioculturais, geográficas e climáticas locais”, disse.

Em Itapema, o Ministério Público entrou com uma ação civil pública em junho de 2026 para suspender a licitação e as obras de Meia Praia, orçadas em R$ 64 milhões, devido a divergências técnicas na ampliação da faixa de areia. A promotora Stephani Gaeta Sanches ressalta que cada localidade exige estudos aprofundados.

“Uma intervenção desse porte precisa ser avaliada considerando toda a dinâmica da praia: de onde a areia será retirada, sua compatibilidade com a areia existente, como as ondas e as correntes vão redistribuí-la e quais serão os efeitos sobre os ecossistemas e os usos daquele espaço”, detalha.

Alternativas sustentáveis e futuro da gestão costeira Como alternativa para otimizar custos e mitigar impactos, iniciativas como a realizada em Itapoá aproveitaram sedimentos retirados da Baía da Babitonga para recuperar três praias simultaneamente. No entanto, especialistas reforçam que é essencial neutralizar a emissão de gases gerada pelas dragagens.

“É fundamental que os projetos que envolvem a dragagem envolvam remoção de carbono com restauração ou com plantio de vegetação de restinga, de dunas vegetadas. Isso fora d’água”, sugere Paulo Horta.

A busca por um modelo sustentável exige que gestores públicos alinhem o desenvolvimento urbano, a proteção costeira e a restauração ecológica para garantir a preservação a longo prazo do litoral catarinense.

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