A recondução de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência do Brasil interrompeu o avanço da direita na América Latina e forçou o governo dos Estados Unidos a recalcular sua rota geopolítica na região. O país tornou-se a primeira nação latino-americana a rejeitar um candidato da direita desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca em janeiro de 2025, desafiando a tendência de alinhamento político observada nos últimos anos em nações como Argentina, Chile, Colômbia e Peru.
O retorno da Doutrina Monroe e a disputa com a China
Desde o início de seu novo mandato, Donald Trump tem buscado ampliar a influência de Washington por meio da retomada da Doutrina Monroe, estratégia criada há 200 anos para exercer poder na região e conter a avanço da China. Para atingir esse patamar, a administração norte-americana adotou medidas drásticas, incluindo o lançamento de operações navais no Caribe, a invasão da Venezuela com a captura de Nicolás Maduro e a inclusão de facções como o PCC e o CV na lista de grupos terroristas do Pentágono.
Além disso, o governo dos EUA implementou o “Escudo das Américas”, enviou tropas para o combate ao narcotráfico em solo colombiano, panamenho e hondurenho, e transferiu recursos militares e drones “caçadores-assassinos” da Europa e da África para o Equador e a Colômbia. O Brasil, detentor de vastas reservas de minerais e terras raras, representava o “maior prêmio” dessa investida estratégica.
Aceleração da influência e militarização regional
Sem a chamada “cereja no bolo” brasileira, a Casa Branca precisará encontrar novos caminhos para expandir sua hegemonia. Conforme avaliação de especialistas em política internacional, a estratégia norte-americana não deve recuar, mas sim intensificar o foco nas nações aliadas.
“Para Washington, a vitória de Lula representa um contratempo, mas não um obstáculo à estratégia regional”, disse Samuel Logan ao g1.
O analista político norte-americano acrescentou que “na verdade, a agenda de Trump para a América Latina tende a se acelerar”. Essa expansão da influência deve ocorrer principalmente através do fortalecimento de operações militares conjuntas com governos parceiros.
“O que está acontecendo é uma tentativa de legitimização do aumento do uso das Forças Armadas dos EUA na região”, afirmou Michael Shifter à agência Associated Press.
O fator Brasil e o cenário futuro
No cenário interno brasileiro, a postura de resistência de Lula frente às exigências norte-americanas impulsionou sua campanha e deve moldar seu quarto mandato. Washington precisará negociar diretamente para obter acordos sobre minerais estratégicos, embora esbarre na forte influência diplomática e militar que o Brasil mantém com seus dez vizinhos sul-americanos.
“O Brasil faz fronteira com 10 nações. Nessas 10, o Brasil possui grande influência; mesmo quando as posições políticas não coincidem, as relações entre as forças armadas permanecem sólidas — muitas vezes, inclusive, mais estreitas do que os laços que esses países mantêm com Washington”, pontuou Logan.
Durante o processo eleitoral brasileiro, Trump evitou apoiar publicamente Flávio Bolsonaro. Após o pleito, o líder norte-americano declarou manter uma boa relação com Lula, embora tenha feito questionamentos sem provas sobre o pleito e permitido a entrada do candidato derrotado nos Estados Unidos, após uma operação secreta de saída do Brasil rumo a Miami.






