Comunidades originárias do Mato Grosso do Sul relatam uma escalada alarmante de ameaças e agressões após o término do segundo turno das eleições presidenciais, motivando uma resposta enérgica de órgãos federais. Entre os episódios mais graves está o incêndio criminoso que destruiu a residência de uma rezadeira de 90 anos na aldeia Jaguapiré, localizada no município de Tacuru.
Destruição de patrimônio sagrado e religioso
O fogo consumiu não apenas a moradia da idosa Ñandesy Roberta, mas também artefatos sagrados utilizados nos rituais tradicionais do povo Kaiowá e Guarani. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil classificou o ato como uma ofensa severa não somente aos direitos fundamentais das etnias, mas também à liberdade religiosa.
Em publicação nas redes sociais, um dos coordenadores da entidade manifestou repúdio aos episódios recentes na região. “Repudiamos todos estes acontecimentos e cobramos de todas as autoridades [públicas] competentes que nos ajudem investigando as pessoas, para que os responsáveis sejam punidos na forma da lei”, declarou Voninho Guarani Kaiowá.
Ações do governo e investigações federais
Diante da gravidade do cenário, o Ministério dos Povos Indígenas e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas acionaram a Polícia Federal para acompanhar as denúncias. Na quinta-feira, o ministro Eloy Terena oficializou a criação de um grupo interministerial para centralizar os registros de violência.
“O Ministério da Justiça também requisitou, de todas as corregedorias estaduais e do Distrito Federal, todas as denúncias que estão chegando, para a gente centralizar aqui, no âmbito do governo federal”, declarou o ministro.
Áudios com ameaças e apologia a envenenamento
A escalada de hostilidades incluiu a circulação de mensagens de áudio culpando o voto indígena pela vitória do presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva. Em um dos registros, um homem sugere colocar veneno na água de abastecimento de uma aldeia. A prefeitura de Tacuru confirmou que o autor é um funcionário público municipal.
O prefeito Rogério Torquetti classificou a repercussão como um assunto complexo, defendeu o trabalhador e afirmou que o autor é um “excelente servidor” e destacou que, em nenhum momento, o homem mencionou os indígenas.
“O servidor diz que teria que pôr veneno na água e matar todo mundo, sem citar nenhum tipo de gente”, acrescentou o prefeito, detalhando que o funcionário foi temporariamente afastado e alvo de processo administrativo disciplinar.
Em outro áudio, um segundo servidor municipal proferiu ofensas eleitorais e fez intimidações diretas a um interlocutor indígena. “Vou te dar um recado bem duro e bem claro. Cê sabe onde eu moro. Eu tô aqui em casa. Quer resolver na pancada, você pode vir aqui. Na pancada, na bala, do jeito que você quiser”, escreveu o servidor.
Atuação do Ministério Público Federal
O Ministério Público Federal em Mato Grosso do Sul instaurou procedimentos para checar a veracidade das acusações e salvaguardar os territórios. No entanto, em Naviraí, o órgão concluiu que relatos de homicídios políticos eram boatos baseados em imagens falsamente associadas a conflitos.
Já em Tacuru, a Procuradoria determinou um prazo de 48 horas para a prefeitura prestar esclarecimentos sobre a conduta dos servidores envolvidos, endossando o afastamento cautelar e a abertura de investigações disciplinares locais.






