A paisagem no município de Poço Redondo, situado no Alto Sertão de Sergipe, é marcada atualmente por grandes extensões de terra batida e riachos completamente secos. Além da escassez hídrica, a estiagem prolongada que assola o território gerou um colapso na agricultura e na pecuária leiteira, acabando com a principal fonte de sustento de diversas famílias da zona rural.
Prejuízos na agricultura e queda na produção leiteira
Na propriedade de Cleiton Feitosa dos Santos, os recursos investidos no preparo do solo para o cultivo de milho, cereal destinado à ração do rebanho, viraram prejuízo total porque a lavoura não se desenvolveu.
“Não vingou nada este ano. O milho foi devagar demais, a chuva foi fraca e o milho não cresceu”, diz o agricultor.
Sem pastagem natural e desprovido de grãos para complementar a dieta dos animais, o custo de manutenção disparou, resultando em uma retração expressiva na captação diária de leite. “Quando elas estavam gordas [as vacas], a gente tirava aqui de 60 a 70 litros diários. Agora, se for tirar o leite hoje, vai dar uns 32 litros. É só para o gasto mesmo”, conta o produtor José Valmir.
Para evitar a morte do gado por inanição, Valmir relatou que recorre a espécimes nativos da Caatinga, a exemplo da macambira e do mandacaru, realizando a queima dos espinhos antes de fornecer o alimento aos animais. “Não engorda, mas dá para ir levando”, desabafa.
Abandono de criações e impacto econômico
Apesar da alternativa improvisada, as perdas têm sido inevitáveis. Valmir contabiliza a morte de quatro animais recentemente. No caso de Cleiton, a única alternativa para conter os danos foi a venda da maior parte do plantel, restando apenas quatro das cerca de 20 cabeças de gado originais.
“Estou querendo vender já, porque não tem outro jeito. Se pelo menos chovesse para melhorar as coisas, mas do jeito que tá aí, não dá”, lamenta Cleiton, reforçando o impacto direto no orçamento doméstico.
Situação de emergência e apoio governamental
Dados oficializados pelo governo sergipano no início de outubro de 2026 apontam que mais de 73,1 mil moradores já sofreram impactos diretos da seca no estado, com 11 municípios sob decreto de emergência.
Para tentar suprir a falta de água, a Defesa Civil Estadual acionou uma frota inicial de 40 caminhões-pipa, com perspectiva de expandir para até 60 veículos caso a procura continue crescendo, complementando o trabalho da Operação Carro-Pipa Federal em conjunto com o Exército Brasileiro.
De acordo com a Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro), os danos às plantações locais foram totais.
“Toda a safra plantada foi perdida [..] tamanha a escassez de água e o déficit hídrico do solo. Com isso, não teve nem produção e, consequentemente, nenhuma reserva alimentar para o gado”, explica o engenheiro agrônomo da Emdagro, Luciano Firmino.
Previsões climáticas desfavoráveis
O cenário para o encerramento do ano exige alerta máximo. Segundo o painel federal sobre o clima divulgado em outubro de 2026, existe uma chance superior a 95% de consolidação do fenômeno El Niño com forte intensidade no último trimestre, o que costuma deprimir os índices pluviométricos e elevar as marcas térmicas na região Nordeste.
O El Niño consiste em um evento climático marcado pelo aquecimento atípico das águas superficiais do Pacífico Equatorial, gerando alterações nos regimes de chuva e temperatura em escala global.
“A tendência é que, até o final do ano, lá por meados de dezembro, a situação esteja muito mais grave do que está hoje. O El Niño tem duas funções básicas: reduzir a quantidade de chuvas e aumentar a quantidade do calor”, alerta o engenheiro agrônomo Luciano Firmino.






