A rede de farmácias Drogasil, pertencente ao grupo RD Saúde, firmou na última quarta-feira (21) o seu primeiro patrocínio esportivo na história ao fechar com o Norde Vôlei, equipe de Fortaleza que representa a região Nordeste na elite masculina da Superliga. A empresa justificou a parceria destacando a forte presença no mercado nordestino e a afinidade com o conceito de bem-estar presente em sua identidade institucional.
Crise superada e desafios estruturais O acordo chega em um momento de alívio para o clube cearense, fundado em 2024 pelo campeão olímpico Marcelo Negrão. Seis meses atrás, após faturar o título da Superliga B em abril, a diretoria avaliou transferir o projeto para fora do Ceará pela ausência de um patrocinador master, evidenciando o descompasso entre o sucesso nas quadras e a estabilidade financeira comum no cenário nacional.
Nova gestão e interesse do mercado O cenário do voleibol nacional caminha para uma reformulação profunda. Durante o lançamento da Superliga 2026/27, o presidente da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV), Radamés Lattari, apontou que esta deve ser a última temporada realizada no formato tradicional. A entidade e os clubes negociam a criação de uma empresa voltada à administração do campeonato, o que abrirá espaço para a entrada de capital privado através de três modelos em estudo: sócio-investidor, associativo e consórcio.
Apelo comercial da competição O apetite do mercado é evidente. Lattari revelou anteriormente que cinco ou seis fundos procuraram a instituição com o objetivo de adquirir participação na gestão da Superliga. Atualmente, o torneio exibe números sólidos: 24 participantes e cerca de 290 confrontos em um calendário de sete meses, com ampla cobertura do Grupo Globo nos canais Sportv2, GeTV e exibições decisivas na TV Globo. Além disso, a premiação global ultrapassa R$ 3 milhões entre os naipes masculino e feminino, configurando a maior recompensa financeira da história do torneio.
Visão internacional e planejamento de longo prazo Para a treinadora brasileira Ana Paula Zandona, com atuação no vôlei universitário dos Estados Unidos, o principal desafio será converter o aporte financeiro em estratégias consistentes. Na visão dela, embora um patrocinador garanta uma temporada, a solidez institucional exige continuidade nos anos seguintes, o que engloba estrutura técnica, condições de treino e perspectiva de carreira.
A especialista reforça que contratações midiáticas geram impacto imediato, mas exigem suporte operacional robusto. Ana Paula destaca que a chegada de uma atleta experiente eleva o patamar do grupo apenas se houver estrutura de suporte adequada. Segundo ela, a contratação é o que o público enxerga, mas “a estrutura é o que permite que ela produza resultado ao longo da temporada”.
Expansão nos Estados Unidos Enquanto isso, o mercado norte-americano atrai investimentos por vias distintas. A liga profissional LOVB estreou em 2025 com seis franquias e planeja alcançar dez equipes até 2027, incorporando mercados como Los Angeles, Miami, Minnesota e San Francisco. A franquia californiana conta com o respaldo de investidores como Alexis Ohanian, cofundador do Reddit. Paralelamente, a concorrente MLV também prepara expansão para o mesmo período, alimentando seus elencos com atletas oriundas do esporte universitário.
Retenção de talentos e desenvolvimento Vivenciando o ambiente da NCAA Division I, Ana Paula enxerga na integração entre base e profissionalismo um pilar para a longevidade das atletas. Ela argumenta que o ambiente universitário concede mais tempo de maturação esportiva e acadêmica. “Nem toda jogadora está pronta para o profissional aos 18 anos e encerrar a trajetória nessa idade pode significar perder alguém que ainda teria muito a entregar”. A própria CBV aponta a retenção de talentos como meta central da nova liga, visando fortalecer o equilíbrio econômico das equipes.
Apesar de enxergar qualidades no ecossistema estrangeiro, Ana Paula pondera que o modelo dos EUA não deve ser copiado integralmente. “São sistemas diferentes. O ponto que merece atenção é a continuidade”. Para ela, o Brasil precisa criar mais alternativas para que as jovens atletas consigam conciliar estudos, competições e desenvolvimento pessoal antes de definir o futuro na carreira esportiva.
Próximos passos da Superliga Antes de abrir espaço para propostas formais dos grupos interessados em atuar como sócios, a CBV e os clubes precisam concluir os debates sobre o formato jurídico da empresa que assumirá o comando da Superliga.






