Principal pilar da balança comercial agrícola entre o território nacional e o mercado asiático, o comércio de soja vive um momento de estabilidade que pode ser desafiado no médio prazo. Três variáveis centrais colocam em xeque a liderança das remessas brasileiras para Pequim: o reatamento dos laços comerciais com os produtores norte-americanos, a busca chinesa por soberania alimentar interna e as mudanças demográficas projetadas para o país asiático nas próximas décadas.
De acordo com uma análise desenvolvida pela consultoria Systemiq, qualquer retração brusca nos pedidos da potência oriental pode desencadear perdas conjuntas de faturamento e cotações. Esse cenário teria impactos diretos na renda dos produtores, no valor das propriedades rurais, nos postos de trabalho no interior e na capacidade das estruturas de escoamento e processamento.
O avanço dos Estados Unidos e a barreira tarifária
No tabuleiro internacional, a China firmou um compromisso de adquirir 25 milhões de toneladas anuais da oleaginosa dos Estados Unidos entre 2026 e 2028, além de assegurar um montante mínimo de US$ 17 bilhões (cerca de R$ 86,1 bilhões) ao ano em mercadorias agrícolas dos produtores estadunidenses. O movimento busca mitigar os atritos originados no tarifaço da guerra comercial iniciada na gestão de Donald Trump.
Apesar da aproximação entre as potências, a soja norte-americana ainda enfrenta uma alíquota de importação de 13% para entrar nos portos chineses, enquanto o produto do Brasil arca com uma taxa aduaneira de apenas 3%. Para Patrícia Ellen, líder global de Natureza e Sistemas Alimentares da Systemiq, “Essa diferença de 10 pontos percentuais ajuda a preservar a competitividade brasileira, pelo menos no curto prazo, mesmo com a aproximação bilateral”.
A especialista em China, Larissa Wachholz, destaca que a preservação dessa cobrança é representativa. “[Manter] essa tarifa acaba também sendo uma sinalização de cautela, de que a relação está estável, mas que ela não está totalmente normalizada”, afirma Wachholz.
No período de maior tensão diplomática entre Washington e Pequim, as perdas dos produtores norte-americanos somaram cerca de US$ 27 bilhões em embarques. Lucas Costa Beber, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja-MT), lembra que o contexto fortaleceu os ganhos locais: “Os Estados Unidos tiveram maior dificuldade nas negociações, o que fez com que os prêmios pela soja brasileira fossem maiores”.
Wachholz observa que a consolidação nacional vai além de disputas pontuais: “Haveria espaço para eles crescerem essa demanda dos EUA, se eles assim entendessem pertinente. Mas eu acho que o principal elemento dessa mudança estrutural em relação ao fornecedor tem a ver com a construção de confiança e entrega”. Em 2026, as exportações brasileiras para Pequim superaram a marca de 64 milhões de toneladas, segundo a Aprosoja-MT.
A estratégia de autossuficiência e a virada no consumo
Mais do que a rivalidade geopolítica com os produtores norte-americanos, as diretrizes internas da China representam o elemento de maior transformação. Por meio de seu Plano Quinquenal, o governo central estipula metas para elevar a produção doméstica de grãos essenciais e proteína animal, ao mesmo tempo em que restringe a dependência externa.
Com investimentos pesados em biotecnologia e manejo, os agricultores chineses elevaram a produtividade da cultura em 80% nos últimos 40 anos. Projeções da Systemiq indicam que as compras externas de soja pela China podem despencar 25% até 2030, puxadas principalmente pela revisão das rações animais — nas quais a inclusão do farelo de soja deve recuar de 14,5% para patamares abaixo de 10%.
“Basicamente, esses 23,5 milhões de toneladas de redução projetada equivalem a praticamente todas as exportações americanas de soja para a China em 2024 ou a um terço das exportações brasileiras destinadas ao país naquele ano”, afirma Ellen. A estratégia inclui a substituição parcial por aminoácidos sintéticos, proteínas bacterianas e insumos como o sorgo.
Sobre as substituições na nutrição de rebanhos, Beber pontua que o cereal alternativo já tem presença forte: “Ele é muito utilizado e muito consumido na China. E o farelo do sorgo acaba competindo com o de soja”. Aliada a essas metas nutricionais, a contração populacional prevista para as próximas décadas reduzirá o volume geral de alimentos necessários.
Rotas de diversificação e valor agregado
Diante do risco de desaceleração das compras asiáticas, analistas recomendam prudência na ampliação de áreas cultivadas no país e sugerem maior foco na industrialização e novos destinos comerciais. Patrícia Ellen alerta que o ajuste do plantio evita perdas: “Você não cria um excedente produtivo que não vai ser consumido em outros mercados.”
A especialista também aponta para a atração mútua de capitais e desenvolvimento técnico. Wachholz pondera que o intercâmbio com Pequim pode se expandir em outras frentes: “Trazendo tecnologia tanto na parte de biotecnologia, de sementes, de insumos para a agropecuária, produtos de maquinário. Como o Brasil é um grande mercado, a gente pode usar o nosso tamanho para atrair investimentos de setores que vão ajudar a gente a ficar mais competitivo”.
Outra oportunidade apontada pelas lideranças do setor reside no fortalecimento de parceiros em ascensão demográfica, como a Índia, associado ao avanço dos biocombustíveis como o biodiesel. “Está tendo uma mudança na cultura mundial também do aumento e da importância do consumo maior de proteínas, isso é uma grande oportunidade para o Brasil”, conclui Beber.






