O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) declarou em entrevista ao periódico norte-americano The Washington Post que os órgãos de poder do Brasil pararam de funcionar adequadamente e que ainda não tem previsão de retorno ao território nacional. O parlamentar está nos Estados Unidos desde o final de outubro, após ser derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno da eleição presidencial.
Estadia nos Estados Unidos e situação migratória
A conversa com a imprensa ocorreu em um escritório de coworking situado em Aventura, localidade ao norte de Miami. Flávio viajou acompanhado da esposa e de duas filhas, de 12 e 14 anos, e foi acolhido pela gestão de Donald Trump sob justificativas humanitárias, com autorização para permanecer no país pelo período que desejar.
“Ainda é muito cedo para tomar qualquer decisão definitiva”, disse Flávio ao jornal. “Mas, obviamente, o que preciso fazer agora é regularizar minha situação migratória e pensar no que vou fazer.”
Desdobramentos eleitorais e investigações judiciais
Lula conquistou o segundo turno com uma margem de aproximadamente 4,4 milhões de sufrágios, o equivalente a quase quatro pontos percentuais, embora Flávio tivesse liderado na primeira etapa. Após o pleito, o senador manifestou intenção de anular o resultado e visitou o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília após condenação do Supremo Tribunal Federal a 27 anos de reclusão devido à acusação de tentativa de golpe de Estado em 2022.
Durante o encontro de 30 minutos entre pai e filho, agentes da Polícia Federal aguardavam do lado de fora. O ministro do STF Alexandre de Moraes havia ordenado a entrega dos passaportes de Flávio em um prazo de 24 horas, além de proibi-lo de deixar o país em meio a apurações sobre suposta lavagem de dinheiro.
“Meu pai olhou para mim, com lágrimas nos olhos, e disse: ‘Você já sabe aonde isso vai dar’”, contou o senador. “Eu disse que sabia e que sabia o que tinha de fazer.”
Saída enigmática do país
Após desistir da contestação judicial e passar cerca de 36 horas longe dos holofotes, o parlamentar deixou o Brasil cruzando a fronteira com a Argentina e reapareceu em um terminal aéreo em Miami, omitindo detalhes sobre a logística utilizada. “Nunca vou falar sobre o caminho que fiz”, declarou.
Enquanto fontes de segurança investigam o possível apoio de autoridades internacionais na operação, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, negou qualquer participação direta da Casa Branca. Por sua vez, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro equiparou a saída do irmão à captura de Nicolás Maduro por forças especiais norte-americanas, mencionando que a equipe da família divulgou dados falsos para despistar investigadores.
Contestações ao sistema eleitoral
Flávio mantém o argumento de que o processo eleitoral sofreu fraudes e aponta dificuldades para a devida auditoria. Embora o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não tenha detectado falhas e seu presidente, o ministro Kassio Nunes Marques, tenha ratificado a lisura da votação, o senador discordou publicamente.
“Garanto a você que ele não sabe do que está falando”, disse. “Nem eu, nem você, nem ninguém que está assistindo, nem o presidente do Tribunal Superior Eleitoral pode afirmar com 100% de certeza que não houve fraude.”
O senador acrescentou que a busca por refúgio nos EUA visou a possibilidade de manifestar suas críticas sem o risco de encarceramento. “As instituições americanas ainda funcionam”, afirmou. “No Brasil, elas não funcionam mais.”
Por fim, o parlamentar participou de um jantar da Conservative Political Action Conference em Mar-a-Lago, onde assegurou aos apoiadores que o revés eleitoral não encerra o movimento político liderado por seu grupo.






