Dar vida a bonecos inanimados exige horas de trabalho minucioso, centenas de peças exclusivas e profissionais dedicados a movimentos que duram poucos segundos na tela. É nesse cenário que o animador Thiago Calçado, natural de Uberaba, no Triângulo Mineiro, consolidou sua carreira internacional ao integrar a equipe de produção do longa-metragem “O Bosque Selvagem” (Wildwood).
Desafios técnicos na animação A animação em stop-motion, desenvolvida pelo estúdio norte-americano Laika, precisou de 16 anos desde a concepção até a finalização, embora o período total inclua captação de recursos e planejamento. A fase de filmagem durou cerca de cinco anos, entre 2021 e 2026, com a participação do mineiro por pouco mais de dois anos. O estúdio investiu em inovações tecnológicas, como mecanismos internos para simular a respiração dos personagens e estruturas complexas para cabelos.
Entre as atribuições de Thiago na equipe, destacou-se a animação de quadrúpedes, exigindo atenção rigorosa à física e à gravidade. O cavalo utilizado nas cenas contava com mais de 300 peças articuladas.
“Eu gosto de desafio. O lance dos cavalos cavalgando é algo mais mecânico, mas, para mim, o desafio era conseguir fazer a física correta da cena, a gravidade atuando naqueles personagens. Eu nunca tenho chance de animar cavalo, então achei que poderia ser uma oportunidade rara”, contou.
O reconhecimento e a conexão com a equipe O filme liderou a bilheteria no Brasil e figura como candidato ao Oscar de Melhor Animação em 2027. Para o animador, o impacto vai além do sucesso comercial, representando a consagração de um estúdio admirado de longa data.
“O Laika finalmente está tendo o reconhecimento que merece. Sou grande fã desde ‘Coraline’. O estúdio sempre foi original no jeito de contar histórias, inovador, e evoluiu a técnica do stop-motion”, afirmou.
“É gratificante fazer parte desse time. O filme está maravilhoso e estou feliz em fazer parte dessa conquista, que é muito difícil.”
O profissional também pontuou que o esforço coletivo envolve centenas de pessoas dedicadas a cada detalhe prático dos cenários e bonecos.
“Enquanto vocês, na audiência, veem os números, a gente vê as pessoas. Eu sei quem fez o cavalo, quem arrumava o cavalo quando ele quebrava. Tem a pessoa que cuida do cabelo da Alexandra, a pessoa que está pincelando um pedacinho de cenário que nem vai aparecer direito no filme”, explicou.
Projetos futuros e valorização nacional Com passagens por outras produções de destaque, como o ‘Pinóquio’ de Guillermo del Toro, o animador agora foca em fortalecer a produção audiovisual brasileira a partir de seu estúdio em Florianópolis e de parcerias voltadas para o público infantil. Um dos planos em andamento é a adaptação do livro ‘A Caixa Preta’, obra de um autor também nascido em Uberaba.
“É lindo, porque é um escritor de Uberaba contando uma história nossa. Vou tentar deixar muita coisa da nossa cultura nessa história. A gente tem que exportar o que é nosso. Quanto mais pessoal, mais criativo”, destacou.
Apesar da repercussão internacional e da proximidade com premiações de grande porte, o foco principal do trabalho continua focado na essência da narrativa e na conexão com o público.
“Se ganhar, a gente vai celebrar como uma grande vitória. É um atestado de que todo aquele esforço foi reconhecido. Para quem está iniciando na área, ele deixa um conselho prático: “Em tempos de redes sociais, o principal é não se comparar com ninguém. As pessoas estão em jornadas diferentes, com estruturas diferentes. Seja gentil com você mesmo, respeite o tempo do seu processo e nunca pare de produzir. Não existe fracasso para quem não para”, concluiu.






