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Brasileiros no Paraguai perdem milhares de reais após colapso bancário

Empresário perde mais de R$ 200 mil e cambista fica sem dinheiro das férias: o prejuízo de brasileiros com crise no Paraguai

A turbulência financeira e institucional que abala o Paraguai nos últimos dias atingiu em cheio a comunidade de expatriados brasileiros que vive no país vizinho, resultando em perdas financeiras significativas, contas bloqueadas e muita apreensão na região de fronteira.

O colapso do Ueno Bank e a queda do governo

A instituição financeira digital Ueno Bank, que concentrava cerca de 3 milhões de contas e atendia aproximadamente 60% da população adulta paraguaia, teve sua liquidação decretada pelo Banco Central do país. A medida drástica ocorreu após uma auditoria revelar que o índice de solvência da entidade despencou para menos da metade do patamar mínimo estabelecido por lei. O rompo bilionário teve origem em empréstimos concedidos a empresas ligadas ao próprio grupo controlador, comprometendo severamente os recursos dos correntistas.

Dois dias após a intervenção no sistema financeiro, o presidente Santiago Peña anunciou sua renúncia ao cargo, no momento em que a Câmara dos Deputados avançava por unanimidade na aprovação de um processo de impeachment. Dados oficiais do Itamaraty apontam que cerca de 270 mil brasileiros residem atualmente em território paraguaio.

Impacto nos negócios locais

Entre os afetados está o empresário Pedro Treméa, de 61 anos, proprietário de uma empresa de refrigeração em Ciudad del Este. Ele possuía valores acima do teto garantido pelo Fundo de Garantia de Depósitos (FGD) do Paraguai, que assegura o ressarcimento de até 228,3 milhões de guaranis — montante que equivale a aproximadamente R$ 200 mil e corresponde a 75 salários mínimos locais.

Cliente da instituição desde os tempos em que operava como Banco Visión, absorvido pelo Ueno em 2021, o empresário utilizava o serviço para gerenciar o capital de giro. A estratégia de diversificar os recursos em diferentes instituições evitou um estrangulamento completo de suas operações comerciais.

“Como empresa, não colocamos todo o recurso em um único banco. No Paraguai é muito utilizado o alias (sistema de transferência instantânea similar ao Pix), e mantemos duas ou três contas em instituições diferentes para atender clientes de várias regiões, o que evitou um impacto pior”, contou.

A instabilidade econômica também provocou forte volatilidade cambial. A cotação da moeda americana disparou de 5.900 para 6.500 guaranis em apenas um dia, pressionando os custos de importação de mercadorias vindas do Brasil.

Trabalhadores e comerciantes no prejuízo

Outro perfil atingido foi o de pequenos empreendedores e profissionais autônomos, como a cambista Dalma Morinigo, de 31 anos, residente em Ciudad del Este há quatro anos. Ela mantinha na conta o equivalente a mais de R$ 7 mil, valor guardado para as férias de fim de ano, e acabou surpreendida pelo bloqueio digital.

“Não há muito a ser feito, temos que esperar. Dizem que até em cinco dias iremos receber, mas não acredito muito nisso”, afirmou.

Na região da tríplice fronteira, o dono de oficina Marcelo Bernard, de 26 anos, perdeu cerca de 5 milhões de guaranis, o equivalente a R$ 4,5 mil. O prejuízo não foi maior porque a economia local ainda mantém o hábito de transações em espécie.

“Para mim a situação não está tão ruim porque no Paraguai as pessoas ainda estão acostumadas a pagar em dinheiro vivo, então eu não tinha todo o meu dinheiro no banco. Eu tinha cerca de 5 milhões de guaranis lá, mas o dinheiro de giro eu mantinha na carteira”, disse.

O clima nas ruas, segundo o mecânico, é de revolta generalizada.

“Há um clima de forte revolta e raiva direcionado ao presidente e aos políticos do país. Por ser uma sociedade conservadora e firme, as pessoas exigem punição rigorosa aos responsáveis”, contou.

Medidas de ressarcimento

Diante da pressão popular e política, o governo promulgou legislação para acelerar a devolução dos valores por meio de recursos do fundo de garantia estatal e previdências públicas, enquanto investigações apuram as responsabilidades pelo colapso da instituição.

“Peço veementemente a todos os setores políticos que coloquem o interesse dos poupadores acima de qualquer outro interesse”, afirmou.

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