O Ministério Público Federal (MPF) abriu uma investigação para examinar se as intervenções de dragagem realizadas no Porto do Recife estão por trás do acentuado crescimento da poluição nas águas marítimas e fluviais da capital pernambucana. A situação tem gerado forte apreensão entre os trabalhadores da pesca artesanal, que relatam quedas drásticas em suas produções diárias e prejuízos severos ao sustento de suas famílias.
Impacto na coleta de mariscos e crustáceos
Na Bacia do Pina, região na Zona Sul da cidade onde os rios encontram o mar, a marisqueira Solange Maria da Silva viu sua colheita diária minguar de 20 quilos para menos de um quilo de moluscos.
“O que saí mais é lixo. No lugar de pegar sururu, a gente pegou lixo”, conta Solange.
Embora a captura de ostras, mariscos e sururu sofra oscilações naturais e diminua durante os meses chuvosos, os profissionais da área notam um cenário atípico desde o meio do ano, afetando tanto quem atua nos bancos de areia quanto quem navega em alto-mar. Registros em vídeo feitos por pescadores mostram armadilhas para lagosta tomadas por resíduos plásticos, como copos descartáveis, garrafas pet e sacolas.
A versão dos pescadores e a resposta do porto
A categoria aponta a escavação dos canais portuários como a principal vilã pelo agravamento da situação ambiental na costa recifense.
“Se você conversar com os pescadores, todos vão falar que a draga está afetando 100% eles”, diz Sandra Lima, presidente da colônia dos pescadores.
Iniciadas no final de junho, as operações de aprofundamento do canal utilizam duas grandes dragas para sugar sedimentos como areia, argila e lama do fundo, descartando o material em alto-mar por meio de tubulações. A gestão portuária refuta as acusações e sustenta que os equipamentos dispõem de dispositivos de filtragem capazes de reter os detritos, que posteriormente seriam destinados a aterros sanitários adequados.
“É improvável. Eu acho que o período do ano, o excesso de turbidez já diminui mesmo essa pesca, e todas as embarcações de dragagem são monitoradas”, afirma Alexandre Costa, coordenador de projetos de engenharia do Porto do Recife.
Busca por soluções e o papel da educação ambiental
Enquanto o caso segue sob o escrutínio federal, órgãos de controle buscam alternativas para conciliar a atividade econômica com a preservação ecológica e a subsistência das comunidades tradicionais.
“Procurar um modelo possível em que seja possível um desenvolvimento econômico, mas também observando a legislação ambiental e o componente social envolvido”, diz Antônio Nilo Rayol, procurador da República.
Especialistas lembram que o problema possui raízes profundas ligadas ao histórico de descumprimento das normas ambientais na região metropolitana. Para o professor Múcio Banja, da Universidade de Pernambuco, a questão exige ações estruturadas a longo prazo.
“A base de todo o processo ainda é a educação. Eu acho que a gente precisa fazer um trabalho com as comunidades que de alguma forma descartam resíduos nos rios, achando que isso não ia causar grandes danos. Nós temos que intensificar políticas públicas”, destaca o docente.
A incerteza quanto ao futuro e à recuperação dos mananciais gera desespero entre aqueles que transformaram a pesca em seu único meio de sobrevivência.
“Quanto pescador está sem o sustento dos seus filhos? E tem que preservar esse rio, porque esse rio é tudo na minha vida, é tudo na vida da gente”, conclui uma marisqueira.






