Estudantes do curso de medicina de uma instituição privada localizada em Maringá, no Norte do Paraná, sofreram sanções disciplinares severas, incluindo a expulsão, em decorrência de ataques virtuais direcionados a colegas bolsistas e de manifestações com referências ao nazismo. As penalidades foram aplicadas após a conclusão de uma sindicância interna que identificou os participantes das conversas ofensivas, direcionadas a alunos ingressantes por meio de programas sociais como o ProUni.
Contexto político e início das conversas
Os episódios de hostilidade ocorreram em um grupo de mensagens da turma e tiveram início após a divulgação do resultado das Eleições de 2026, que confirmaram a reeleição do presidente Lula. Nas conversas, registradas em um domingo, alguns discentes utilizaram argumentos financeiros para tentar inferiorizar os colegas que ingressaram por mérito acadêmico em programas de inclusão.
“Quem paga trabalhou e tem 15 mil [reais] por além para pagar >>>>>>> Quem passou numa provinha”, escreveu um outro estudante.
Em contrapartida, outros integrantes da turma repudiaram a postura adotada. Uma aluna rebateu os ataques e destacou a igualdade na futura profissão: “Virou bonito ofender quem não tem dinheiro para pagar toda a mensalidade, como vocês? Todo mundo aqui vai sair com CRM [registro profissional para exercer a medicina]”.
Apologia ao nazismo e medidas da instituição
Além dos ataques de cunho socioeconômico, as investigações apontaram o compartilhamento de imagens e expressões de apologia ao nazismo. Entre os registros, um estudante enviou a foto de tropas nazistas associada ao termo “leite cru”, jargão difundido por grupos virtuais ligados à supremacia branca.
Diante da repercussão, a UniCesumar divulgou nota oficial detalhando as punições aplicadas com base no regimento interno.
“A UniCesumar comunica que concluiu no dia 30 de outubro a Sindicância Interna aberta para apuração dos fatos envolvendo mensagens trocadas em grupo de WhatsApp por alunos da Instituição. A Comissão de Sindicância recomendou e a Reitoria da Unicesumar decidiu pela aplicação de medidas disciplinares em relação aos alunos envolvidos, nos termos do Regimento Interno da universidade. As medidas disciplinares foram: desligamentos do quadro discente da Instituição, advertências e suspensões, de acordo com a gravidade de cada conduta apurada. A UniCesumar reafirma seu compromisso com a ética, a responsabilidade, o respeito à vida e os valores que orientam a formação de seus estudantes. A Instituição repudia veementemente qualquer forma de discriminação ou preconceito. O Núcleo de Apoio ao Estudante de Medicina (NAEME) permanece à disposição dos alunos para oferecer acolhimento, orientação e suporte, nos contatos (44) 99122-3957 ou (44) 3027-6360 ramal 2870.”
A administração da faculdade optou por não detalhar a quantidade exata de alunos que receberam cada tipo de penalidade, resguardando a privacidade do processo e eventuais envolvidos menores de idade.
Investigação dos órgãos competentes
O caso mobilizou autoridades externas e entidades de classe. O Ministério Público Federal confirmou o recebimento de denúncias e conduz apurações sobre o teor das mensagens.
Em paralelo, o Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR) emitiu um posicionamento contundente repudiando a conduta dos universitários.
“Tais atitudes ferem diretamente os princípios fundamentais do Código de Ética do Estudante de Medicina, segundo os quais o estudante deve estar a serviço da saúde do ser humano e da coletividade, exercendo suas atividades sem discriminação de qualquer natureza. A escolha pela Medicina exige compromissos humanísticos e humanitários, pautados pela promoção do bem-estar físico, mental e social dos indivíduos e da coletividade. Atitudes discriminatórias são incompatíveis com esses valores e não devem ser toleradas no ambiente de formação médica. O CRM-PR adotará todas as providências cabíveis no âmbito de suas atribuições institucionais e acompanhará o desdobramento do caso, contribuindo para que haja uma apuração rigorosa e transparente dos fatos pelas instâncias competentes.”
Estudantes da graduação relataram que o ambiente acadêmico permanece sob forte tensão desde que o caso veio à tona, com ausência prolongada tanto dos autores das ofensas quanto dos alunos que foram alvos das mensagens.
“É um clima hostil na faculdade, um clima hostil nos grupos, que vai muito além de divergências políticas. Parece que o contexto da eleição foi apenas um pretexto para eles extravasarem o ódio às pessoas mais pobres”, relatou um aluno que preferiu manter o anonimato.






