Em 25 de outubro, Lula venceu Flávio Bolsonaro por 51,8% a 48,2%. Flávio havia liderado o primeiro turno. Dezessete dias antes daquele primeiro turno, um decreto elevou o Bolsa Família em 15%, ao custo de R$ 5,8 bilhões neste ano e R$ 22,7 bilhões em 2027.
O ciclo da economia e o papel da direita
O padrão político na América Latina é recorrente: a esquerda governa gastando e, quando os recursos se esgotam, a direita é acionada para realizar o ajuste fiscal. Exemplos históricos como o teto de gastos de Michel Temer em 2016 — que resultou em baixíssima popularidade — e a tentativa de ajuste gradual de Mauricio Macri na Argentina mostram que cortar despesas gera desgaste político imediato, enquanto os benefícios a longo prazo raramente são percebidos pelo eleitorado.
Mesmo quando a direita tenta a estratégia oposta, como o aumento do Auxílio Brasil promovido por Jair Bolsonaro em 2022, o resultado nas urnas não é garantido, uma vez que em disputas baseadas em promessas sociais a esquerda tende a ampliar as ofertas. Por outro lado, Javier Milei demonstrou na Argentina que um corte rigoroso pode vir acompanhado de queda na inflação e vitórias eleitorais, embora casos assim permaneçam como exceções em um cenário estrutural desfavorável.
A ocupação dos espaços institucionais
A pergunta central é por que a esquerda recupera o poder após crises que ela mesma gerou. Parte considerável da resposta reside na ocupação de espaços de longo prazo, com destaque para as universidades públicas. Segundo Gabriel Cepaluni, professor de ciência política da Unesp, as instituições de ensino superior transformaram-se em grupos de interesse com fortes vínculos partidários.
Conforme aponta o autor, “a universidade brasileira deixou de ser apenas um lugar de ensino e pesquisa e virou um grupo de interesse, com orçamento a defender, carreiras a proteger e um aliado partidário claro”. A formação de juízes, diplomatas, jornalistas e professores nessas estruturas molda a direção do país por décadas, superando os ciclos eleitorais de curto prazo.
A necessidade de construir hegemonia
Enquanto iniciativas liberais no Brasil focam na formação de militantes e candidatos através de institutos e fundações, projetos internacionais de longo prazo — como a Federalist Society nos Estados Unidos ou a criação de universidades por lideranças conservadoras no Chile — demonstram a eficácia de investir na elite que ocupa o Estado por longos períodos.
Para romper com o ciclo em que atua apenas como gestora de crises, a direita precisaria direcionar recursos empresariais para bolsas internacionais, cátedras acadêmicas e preparação para concursos de carreiras de Estado. Apenas com o crescimento econômico sustentado e a construção de hegemonia institucional ao longo de décadas será possível superar o papel histórico de ser chamada apenas para limpar as contas públicas.






